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 Disse a Annabelle que apreciava a forma como ela encarava a vida e as relações. Isto constituia um sítio de mutualidade, um sitío onde partilhávamos valores. Falei-lhe então de mim, incluindos os pontos em que encontrava discrepâncias entre os meus valores de autenticidade, prestabilidade, e as minhas próprias necessidades e limitações. Annabelle falou-me de como ela podia dar aos outros estando no seu papel, mas era mais difícil para ela receber. Partilhou então comigo que obtinha pouco prazer da comida, e que se tinha que forçar a si própria a comer. Embora isto representasse um espectro de temas muito abrangente, relacionados com o campo (a comida está estreitamente relacionada com a família e com o tipo de relações à medida que vamos crescendo), quis manter o foco na relação terapêutica. Sugeri então uma experiência em que eu faria algo que a nutrisse, e ela praticaria aceitar receber. Demos as mãos. Lentamente acariciei-lhe as mãos com os meus dedos. Ela começou a acariciar de volta, mas eu detive-a - esta era a sua tendência de dar em vez de receber. A direcção que lhe apontei foi a de ver se ela podia receber algum sustento e prazer. À medida que o fazia, ela indicou-me não ser capaz de receber muito - os seus braços estavam rígidos. Também mordiscava os lábios, e estava consciente de fazer várias coisas que bloqueavam receber algum sustento de mim. Então, segurando as suas mãos, levantei lentamente os seus braços e movimentei-os. Pedi-lhe que abdicasse do controlo, que relaxasse e me deixasse fazer aquilo. Era muito difícil para ela, mantinha-se rígida e tratava de seguir os meus movimentos, em vez de me deixar conduzi-la. Fizémos este exercício durante algum tempo. Foi capaz de afrouxar um pouco, e à medida que o fazia, foi capaz de se deixar nutrir um pouco. Mas era difícil para ela. Dei-lhe como trabalho de casa encontrar uma outra pessoa com quem praticar. Em termos de trabalho futuro, haveria também várias formas de o continuar - explorando a sua resistência a abdicar do controlor, bem como a sua reluctância em deixar-se nutrir. Viríamos a abordar qualquer assunto de família que estivesse relacionado com este tema, incluindo o sítio onde se guardava a comida em sua casa. Em Gestalt, cada vez que encontramos uma ´resistência` não tratamos de a romper - em vez disso respeitamo-la. Procuramos o contexto - a situação original que ameaçou o ´ajuste criativo`. Tratamos de apreciar o ajuste criativo, entendê-lo, e tratá-lo de forma positiva. Deste modo, pude descobrir quão importante era para ela manter-se em controlo, o que estava em jogo ao abdicar desse controlo e poder confiar. É como se de repente se tornasse evidente que confiar, relaxar, não era uma boa ideia no seu contexto familiar/original. Sendo assim, qualquer nova experiência comigo teria de ser encarada com calma, apreciando o quão arriscada poderia ser. É melhor trabalhar muito devagar, de um modo que possa ser integrado - as experiências teriam então que levar isto em linha de conta. Também viríamos a experimentar comer algo durante a sessão - por exemplo pedaços de maçã. E realizar uma experência de tomada de consciência relacionado com comida, notando os detalhes do processo. Em vez de comportamentos do tipo ´falar acerca de´, procuramos sempre explorá-los na própria sessão, com tomada de consciência e apoio.
 Martha descreveu a sua dificuldade em contactar com os seus sentimentos. Era counsellor, mas era sobretudo uma pessoa muito mental. Foquei-me primeiro no aqui e agora entre nós. Como era para ela sentar-se comigo, o que sentia durante o nosso contacto. A cada questão que colocava a Martha, também partilhava os meus próprios sentimentos. De seguida pedi-lhe que olhasse a sala em redor, para cada pessoa, que notasse a reacção do seu sentir e como diferia. Por fim, convidei-a a olhar para mim, e permiti-lhe que visse parte do meu mundo interno - passei a ´modo cliente` durante cerca de um minuto, saindo do meu modo ´dador, encarregado, profissional´. Não demorou muito a notar - disse-me ´oh, estás triste´. Salientei que o que era importante era o que ela estava a sentir - a sua tristeza como resposta. Ela podia então confirmar comigo e perguntar-me pela minha experiência. Ela tinha razão neste caso, mas é importante não presumir. As pessoas têm a noção equivocada que podem ´sentir os sentimentos de outra pessoa´. Em Gestalt discordamos - sentimos sempre os nosos próprios sentimentos - mas a fronteira é importante. Apenas podemos imaginar os sentimentos de outrem, e indagar pela confirmação. Assumir que ´sabemos´ é desrespeitoso e não ajuda. Em termos mais clássicos usamos a palavra ´projecção´para descrever o que acontece. Não podemos de todo sentir os sentimentos de outra pessoa - eles ocorrem no corpo de outrem, e nós não estamos nesse corpo. Os nossos próprios sentimentos podem estar em ressonância, mas pertencem-nos. Neste sentido, a projecção descreve a nossa habilidade em IMAGINAR os sentimentos de outra pessoa, usando os nossos próprios como guia. Isto ajuda-nos a orientarmo-nos no mundo, relacionarmo-nos, e descobrir (potencialmente) que estamos em sintonia com os outros. Mas é somente quando conferimos estas coisas que podemos confirmar se as nossas projecções eram certeiras ou não. Daí a precisão da linguagem ser considerada importante em Gestalt, uma vez que nos permite ter estas conversas, averiguar, dialogar, testar as nossas percepções. Isto equipa-nos com uma linguagem de comunicação acerca das emoções que é clara e rica no contacto, ao invés de ser confusa e pretenciosa.
 Samantha era um mulher de negócios de sucesso. Mas ela não conseguia encontrar um companheiro. Descreveu uma das dificuldades - ou trabalhava demasiado no seu negócio, ou trabalhava no sentido de encontrar um companheiro. Parecia angustiada com este assunto, e disse-me estar muito infeliz. As suas tentativas de conhecer homens simplesmente não estavam a resultar. Quanto mais falámos deste tema, mais eu conseguia ver quão intensa era a sua infelicidade. Ela aparentava estar bastante desgraçada. Inquiri acerca disto. Descreveu-me um estado geral transtornado, mas associava-o a não encontrar um companheiro. Uma pessoa pode ter uma figura de interesse evidente - o seu ´tema`. Mas esta não é a forma na qual trabalhamos sempre em Gestalt. Estamos sempre mais interessados no processo, no COMO, ao invés do O QUÊ. Neste caso, foi o seu tom de voz, o seu estado de ânimo, que eu segui. É importante escutar o tema, e igualmente importante não se deixar distrair por ele. O estado emocional vem sempre primeiro, depois o conteúdo. Convidei-a então a fazer uma experiência. Pedi-lhe que olhasse para a sala em redor e me dissesse a sua cor preferida - verde. Era um quadro com uma árvore verde. Pedi-lhe que olhasse para o quadro, pusesse a mão no seu ventre e inspirasse o prazer de olhar para aquela cor. Várias vezes começou a chorar, fechando os olhos. Mas numa voz forte pedi-lhe que se mantivesse presente, que olhasse, respirasse e deixasse entrar algum do prazer. Na Gestalt prestamos atenção à experiência do ´agora`- forma parte do trabalho de enraizamento, bem como do caminho em direcção à vitalidade, que é, de algum modo, o objectivo da Gestalt. De seguida pedi-lhe que escolhesse um objecto na sala. Escolheu uma vela verde. Pedi-lhe que fizesse o mesmo exercício. Começou a retrair-se, e novamente lhe pedi que se mantivesse presente. Ela assim o fez, mas então disse uma frase ´os mortos-vivos´. Perguntei-lhe o que significava. Explicou-me que se sentia culpada, que tinha feito um aborto e nunca o tinha superado. Assim, isto tornou aparente o seu assunto inconcluído, com que precisamos lidar antes da pessoa se poder tornar verdadeiramente presente na sua própria vida. Então eu criei um ritual para ela - acender a vela, ofereci-lhe uma frase longa para dizer à criança por nascer, reconhecer a frase e logo libertar-se; por fim apagar a vela. Quando o fez, tornou-se mais estável. Sugeri-lhe que fizesse este ritual todos os dias até a vela se consumir por completo. Uma vez mais, pedi-lhe que olhasse para a vela verde, com uma mão no ventre, e inspirasse algum prazer. Desta vez foi mais capaz de o fazer. Isto foi importante para a ajudar a manter-se presente, uma vez que quando as pessoas têm uma tendência para a depressão, podem afundar-se facilmente nela, afogando-se na familiaridade da sua desgraça. Um dos antídotos é o prazer, e ser capaz de o assimilar. Tal pode fortalecer, de tal modo que a pessoa possa ´seguir com a sua vida`, qualquer que seja o seu conteúdo.
 Navin contou-me que frequentava aulas de creatividade com a sua mulher como passatempo. Eu estava interessado em que tinha de mulher ela era - forte e poderosa, respondeu-me. Falei-lhe minha da experiência com a minha mulher, também forte e poderosa. Examinámos como isto era para nós - estabelecendo uma base para a conexão. Falou-me do seu filho, adolescente, e da sua ligação com ele, que era sólida. A forma como explorei estes tópicos foi a partir de um sítio de mutualidade - partilhando também a minha própria experiência. A cada pergunta que lhe fazia, também lhe dava a minha resposta. Navin contou-me acerca de como ele tendia a ser de algum modo passivo na relação, concordando com a sua mulher e com o que ela queria, na maioria das coisas. Por exemplo, ao ir ao restaurante escolhido por ela. No entanto, houve uma vez em que ele tinha escolhido um sítio diferente, por estar aborrecido com o mesmo local. Surpreendeu-o que ela estivesse de acordo. Para mim isto foi indicativo que a relação estava baseada, até certo ponto, no pressuposto do seu ajustamento fácil. Também partilhei a minha situação referente ao meu estilo pessoal no que tocava a este tema. Sugeri-lhe uma experiência. Ele tinha 3 desejos,e no terceiro desejo tinha que pedir mais 3. Pedi-lhe então que imaginasse um dia, desde o início, e que dissesse o que pediria, directamente, à sua mulher. Atravessámos o dia passo a passo...para ele foi difícil identificar algumas das coisas que desejava...pelo que lhe ofereci várias sugestões para o ajudar a pensar no assunto. Lentamente foi identificando alguns pontos em que pediria algo, até ao fim do dia. Esta experiência foi simples mas profundamente importante. Em Gestalt interessamo-nos sempre em realçar a autenticidade e usá-la como apoio para a qualidade de contacto na relação. Nesta experiência mental, Navin teve a oportunidade de tentar ser mais assertivo, e poder manifestar-se mais a respeito de quem é e o que deseja. As pessoas podem lidar umas com as outras comfortavelmente numa relação, mas estamos interessados em aportar mais profundidade. Isto acontece através do processo de ´mostrar-se`, com o que sentimos, o queremos e o que somos. Tal permite-nos ser mais vistos e conhecidos, e faz crescer a inimidade. Em termos de género, as mulheres parecem gostar de ´estar no comando`, ou que os seus desejos sejam vistos, ouvidos e correspondidos, mas existe um equilíbrio - uma vez que também gostam que o homem assuma a liderança da maneira correcta. Nesta experiência criámos uma forma segura de Navin tentar este tipo de declaração frontal dos seus interesses. Estas experiências envolvem sempre algum risco, ainda que sejam apenas exercícios mentais. Representam uma nova forma de ser ou estar, e de revelar e dar voz a aspectos do self que tenderam a estar num plano de fundo. Geralmente ocorre emoção associada com este processo - ressentimento reprimido, excitação, ou talvez ambos. É importante, em qualquer experiência, seguir não apenas o conteúdo, mas também prestar continuamente atenção ao tom emocional.
 Reparei que Manuel pôs a mão no peito. Disse que se sentia nervoso. E não prestei mais atenção a isso - é frequente as pessoas estarem nervosas durante parte da sessão. Reparei nas suas calças, a variedade de cores cinza que tinham e comentei acerca disso - seria ele uma pessoa ´preto no branco´ ou uma pessoa de ´vários tons de cinzento´? No entanto, algo mais se passava com Manuel. Parecia triste, e não de todo interessado nas minhas perguntas. À medida que explorávamos a sua tristeza, tornou-se mais forte, mais profunda. Parecia bastante calado e afastado naquele lugar. É importante que quando fazemos uma exploração, ou nos movimentamos numa experiência Gestalt, prestemos uma atenção cuidadosa à energia da pessoa, e se ela não estiver presente, então estarmos disponíveis para mudar de direcção, para onde a sua energia residir naquele momento. Manuel contou-me ter sido uma criança reguila e indisciplinada até ao liceu, e tornar-se depois um aluno de topo. Era um pouco difícil para ele estar na ribalta, tanto pelas expectativas como pela inveja das outras crianças. E isto ainda era algo difícil para ele, ser visto pelos outros desta forma. Fiz-lhe notar que ele não parecia reguila nem atrevido agora - bem sério, pelo contrário. É importante fazer uma conexão entre a história que a pessoa está a contar com os fenómenos do aqui e agora - dizemos, fazer uma conexão do Campo com Tomada de Consciência. Perguntei-lhe acerca do que acontecera antes do liceu para provocar esta mudança, mas não me soube dizer. No entanto, parecia-me muito pesaroso. Perguntei-lhe então que idade ele sentia ter. Respondeu-me que se sentia com 4 anos. Indaguei sobre o que tinha acontecido nessa altura. Contou-me que tinha sido enviado para um infantário em regime de internato, mas não tinha nenhuma memória específica. Ficámos assim sentados por algum tempo. Parecia muito recolhido, muito sério, muito angustiado. Perguntei-lhe acerca da sua experiência. Disse-me que se retirava para o interior de si mesmo quando sentia este tipo de tristeza profunda - era difícil partilhar. Isto mostrou-me exposição da sua parte, pelo que lhe disse que estava presente, sólido, disponível, ajudador e interessado nos seus sentimentos. Sentia-me aberto e caloroso em relação a ele. Permanecemos sentados por algum tempo mais. Nada parecia mudar. À medida que olhava para ele, parecia-me que se encontrava nalgum tipo de choque emocional. Comentei-lho. Ele não me sabia localizar nenhum incidente. Mas era evidente que ´algo` acontecera, por volta daquela idade, que lhe causara muito dano. É importante ´não empurrar o rio`. Quando as coisas não fluem, sentamo-nos simplesmente com ´o que há´, sabendo que o que emergir é suficiente, e se algo mais tiver que emergir, assim sucederá. Os momentos em que se animou foi quando falou da sua filha, e como nunca a deixaria ser forçada a fazer algo que não quisesse fazer. Isto pelo menos era evidente - ele tinha sido forçado a fazer algo: devolvi-lhe esta reflexão. Enquanto estávamos ali sentados, o que eu conseguia ver mais claramente era a sua seriedade. Disse-lhe, ´Eu levo os teus sentimentos muito a sério agora mesmo´. Isto teve um grande impacto nele. Claramente, a sua angústia tinha passado, e ele aprendeu a geri-la internamente. Tinha-o feito toda a vida, e agora encontrara alguém que o viu nesse lugar, viu a sua angústia e a tomou a sério. Tal foi suficiente. O assunto não foi ´resolvido´, não localizámos o incidente ou incidentes. Mas em Gestalt buscamos uma qualidade de contacto, com consciência plena: isso é em si mesmo transformador.
 Brittany referiu de início que tinha tido recentemente o estômago irritado e problemas digestivos. No entanto, quis conhecê-la um pouco mais antes de me debruçar sobre este tema, uma vez que tinha comentado sentir-se um pouco envergonhada a este respeito. Ela dirigia uma escola e tinha alguns problemas com um aluno. Eu empatizei, dadas as minhas próprias experiências, e isto estabeleceu um ponto de ligação. Sentado com ela, tive uma sensação de peso, e partilhei-a. Falou-me acerca de se sentir desmotivada, particularmente em relação ao trabalho - não queria ir trabalhar até o dia já ir avançado, e demonstrava uns quantos sinais de algum tipo de esgotamento. Perguntei-lhe pela sua vida familiar. Era boa, tanto o filho como o marido a estimavam e nutriam. Contou-me a respeito de um jogo em que ela escondia coisas pela casa para eles encontrarem. Também queria pôr rodinhas em toda a mobília de modo a poder deslocá-la à vontade, para que de cada vez que eles voltassem a casa tudo estivesse num lugar diferente. Comentei que isto revelava um lado seu criativo e brincalhão. Brittany falou-me de uns dias que tinha passado com os sogros; como eram idosos tudo o que faziam era comer, dormir e jogar às cartas. Passado algum tempo ela aborreceu-se e quis mudar as regras do jogo, para variar; fiz-lhe notar que isto era o seu lado criativo e brincalhão em acção. Mas os sogros opuseram-se, o que a aborreceu muito - e foi então que ficou com o estômago irritado. Durante um bocado ficámos sentados em silêncio. Contou-me que quando era mais nova não falava muito, mas costumava escrever. Pedi-lhe que se imaginasse a escrever uma história... qual seria o título? Respondeu-me que se chamaria ´O Ovo`. Perguntei-lhe então sobre os primeiros parágrafos, e ela falou acerca de uma cria que emergia de um ovo. Pedi-lhe que me dissesse que coisas novas estavam a emergir na sua vida. Falou-me acerca de querer mudar as coisas na sua escola e de como tinha ajudado um amigo a escrever um relatório que lhe serviu para arranjar emprego - tinha ficado contente. Sugeri que parecia que a criatividade e o espírito lúdico poderiam ser algo que estava a emergir - ela concordou. Perguntei-lhe como poderia trazer essas qualidades para a sua situação de trabalho. Ficou sem resposta. Convidei-a então para um jogo, em que eu faria sugestões acerca de mudar as coisas no seu trabalho de uma forma criativa, e ela faria as dela. Estivémos assim durante um bocado, e depois contou-me que já o tinha tentado uma vez, mas que tanto os professores como os alunos tinham sido muito críticos porque ela se havia desviado da lista de coisas que eram supostas ser feitas. Isto era algo em que claramente necessitava apoio e eu chamei-lhe a atenção para esse facto - ela precisava de um aliado, um ´co-conspirador`. Disse-me que não era realmente possível, mas fiz-lhe notar que a consequência de suprimir a sua criatividade era a irritação no estômago que lhe tinha acontecido em casa dos sogros. Convidei-a então a imaginar-se a escrever um relatório para a sua escola - que tipo de recomendações profissionais faria? Pedi-lhe que inventasse um exercício criativo para o grupo cada dia. Mostrou-se reluctante, mas disse-me que iria levá-lo em consideração. Num dado momento ela tinha reparado nas minhas meias coloridas, e feito a comparação com as suas próprias meias coloridas. Sugeri então que uma actividade para o grupo poderia ser um jogo de sedução com os pés por baixo da mesa. Foi muito divertido quando fiz esta sugestão, e para ela foi uma demonstração de como a criatividade poderia ser aplicada a uma situação de aprendizagem. Com isto criei também uma pista para ela utilizar, fazendo uso da minha própria posição para incorporar diversão e uma intervenção fora dos parâmetros normais. Neste trabalho, a primeira figura foi a sensação de peso e irritação. A figura seguinte foi a criatividade. A abordagem Gestalt é uma forma de trazer mais vitalidade à vida das pessoas; isto é feito fenomenologicamente - de dentro para fora - a partir da sua realidade e usando os marcadores e a linguagem que nos fornecem. Também nos focamos no apoio - neste caso, ela não tinha o apoio que precisava para fazer emergir esta sua faceta no local de trabalho. Usando uma qualidade precoce dela - a escrita - pude entrar em contacto com o seu sonho e então dar apoio ao seu self emergente. Trabalhamos com o óbvio em Gestalt - a cria a sair do ovo é algo directo que não requer nenhuma interpretação em particular - o que é importante é a sua aplicação ao assunto específico que surge no momento. O apoio derradeiro que lhe pude fornecer foi uma abordagem do género ´dar autorização`, que demonstrei pegando em algo que ela tinha reparado - as meias - e usando a minha autoridade como um exemplo de como a criatividade pode ser usada numa sala de aula.
 Ping contou-me a respeito da família em que crescera. Os seus avós não se tinham interessado muito por ela ou pela irmã pois preferiam rapazes. Tão pouco se sentia amada pelos seus pais. A mãe cuidava dela, mas raramente havia demonstração de ternura da sua parte. O pai jamais a tinha abraçado. Contou-me um incidente ocorrido quando tinha 8 anos. A mãe estava a vesti-la; Ping tinha-lhe dito que queria um vestido colorido diferente. De algum modo acordou o pai, que na sua fúria pegou nela e a atirou pelas escadas abaixo. Ficou a sangrar da cara, mas tinha na mesma que ir à escola. A professora ficou preocupada, mas nada de mais aconteceu. Ela não queria voltar para casa, e escondeu-se numa cave até que alguém contou à sua mãe, e esta a veio buscar. A mãe chorou um pouco ao vê-la assim, mas o pai nunca expressou qualquer remorso. Chorava copiosamente ao contar a história, descrevendo quanta dor havia no seu coração. Fui gentil com ela, mas ela encontrava-se no seu mundo de dor, apenas dando por mim de um modo periférico. Fiz-lhe notar que eu era um homem. Que eu me preocupava, mas que isso devia ser uma situação confusa, porque tinha sido o seu pai que lhe causara a sua dor; ao mesmo tempo que lhe dava cuidado, eu também representava a autoridade mais velha que originalmente a magoara tanto. Ping concordou com a cabeça, derramando mais lágrimas. Falou de querer a sua independência, poder ser quem era, e tomar decisões respeitantes à sua própria vida. Disse-lhe que aprovava, e que lhe daria todo o apoio que pudesse. Contou-me acerca da maneira como a mãe a andava a pressionar para que se casasse, e a tratar de influenciar o seu trajecto profissional. Continuei a trazê-la de volta ao presente, ao meu apoio, ao facto de ser um homem a apoiá-la. Foquei constantemente a sua atenção na respiração, pois ela continuava a contê-la. Sem este movimento energético, não haveria hipótese de integração da nova experiência. Ping falou novamente de querer a sua autonomia, e querer ´sair do círculo´, que era como uma prisão, das expectativas da sua família. Convidei-a pois a uma experiência simples. Pusémo-nos de pé, imaginando um círculo em nosso redor. Dei-lhe a mão, relembrando-a do meu apoio à sua autonomia. Este tipo de apoio em particular necessita vir da parte do pai, e no caso dela estava ausente, bem como qualquer ternura. Assim, eu forneci-lhe ambos. Levou bastante tempo, mas eventualmente ela deu um passo para fora do círculo, e eu com ela. Segurei-lhe então em ambas as mãos e disse-lhe, ´Agora, podes decidir em que condições queres basear uma relação. Podes insistir em ser amada e valorizada por um homem´. Dei-lhe esta mensagem para reforçar o próximo passo possível - encontrar um tipo diferente de relação com um homem, que não fosse simplesmente uma repetição inconsciente do seu pai. Ela disse, ´Posso desejar algo assim, posso pedir algo assim´. Corrigi-lhe a linguagem, porque era de alguma forma uma linguagem desvantajosa e desamparada. Pedi-lhe que reformulasse de um modo que tivesse uns limites claros - o que ela requeria como mínimo, as suas fronteiras. Tal deu-lhe o apoio e orientação por parte de um homem em relação àquilo que podia esperar da minha parte. Ela foi profundamente tocada por este processo. Foi simples, mas sustentado pelo seu desejo; a ênfase em Gestalt é sempre na integração, em dar pequenos passos que sejam somaticamente incorporados na tomada de consciência e na experiência ao longo do processo.
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