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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Case #30 - Uma boa razão para não sentir sexualidade

A Bridget reportou ter um sentimento "gelado" ao fundo das costas e na área genital. Ela estava divorciada há 5 anos e não tinha econtrado outro relacionamento.
Disse que tinha sido magoada pelo seu marido. Nunca tinha sido muito responsiva sexualmente para ele, mesmo ele tendo-se esforçado bastante durante vários anos, e a relação tinha muitos aspetos bons.
Perguntei-lhe especificamente como ele a tinha magoado, mas ela teve dificuldade em apontar isto. Ela disse que se tinha sentido próxima dele, tendo sido nessa altura que experimentou o sofrimento.
Mas parecia que ele não tinha feito nada em particular que fosse prejudicioso. Então as setas apontavas para outro lado.
Ela relatou que nunca tinha, na verdade, grande sentimento no seu corpo, e ponto final.
Eu coloquei-me no momento, contei-lhe a minha própria experiência de dissociação, e como achei difícil encontrar-me plenamente no meu corpo.
Ela disse que suspeitava, para ela, ter resultado de testemunhar o seu irmão ser espancado pelos seus pais desdes os 8 aos 16 anos. Depois disso ele foi roubado por traficantes humanos, e passaram 5 anos até conseguir escrever uma carta e ser resgatado. Contudo, depois disso, ele vagueou pelas ruas com outros mendigos, roubou, esteve preso diversas vezes, e até roubou a irmã quando ela o tentou ajudar.
Há 15 anos o pai deles morreu, e ela comentou que desde essa altura o seu irmão estava bem, feliz, e a ter uma boa vida.
Não obstante, ela ainda sente muito sofrimento e culpa por não ter consiguido fazer nada relativamente aos maus tratos.
Salientei que ela nunca tinha tido nenhum apoio durante aquele tempo - ninguém com quem falar, ninguém que a confortasse.
Sugeri que, dado que o sofrimento ainda se encontrava muito presente para ela, eu me sentasse junto dela e colocasse o meu braço em sua volta, para que ela pudesse sentir o apoio que nunca teve. Para ter o sentimento como se eu estivesse lá, naquele momento, com ela.
Enquanto fiz isto, ela começou a soluçar com profundo e extremo sofrimento, ofegando. Eu segurei-a e respirei, ficando bastante presente, ouvindo a terrível dor no seu choro.
Após um longo tempo o seu choro diminuiu, e ela ficou quieta e sossegada. Eu disse umas palavras de reconhecimento.
Depois, ela sentou-se e olhou para mim. Disse 'agora quero dar-lhe algo'. Eu podia sentir a mudança nela, e a minha energia. Disse-lhe que conseguia sentir isso, que sentia calor. Ela relatou sentir calor em si mesma, através do seu corpo.
Perguntei-lhe o que me queria dar, mas ela debateu-se por um tempo com as palavras.
Então ela disse 'gostava de beijar os seus olhos com os meus'. Conseguia sentir a sua abertura e a troca de energia entre nós. Eu disse que agora ela estava no seu corpo, e pronta para um relacionamento. Ela assentiu.
Não peguei na primeira figura que ela evocou (sentimentos gelados), nem na segunda (falta de sentimentos gerais pelo seu corpo). Respondi em diálogo e aguardei até que algo emergisse, que seria o problema não resolvido no âmbito familiar.
Testemunhar tamanho trauma deixou uma marca profunda nela e, apesar do seu irmão ter finalmente recuperado a sua vida, ela ainda suportava o sofrimento e culpa. Ela não conseguia prosseguir para si mesma enquanto não se visse no seu lugar de sorimento com total apoio.
Promovendo essa esperiência foi despoletada uma experiência de cura profunda, permitindo-lhe espontaneamente deixar ir o sofrimento e culpa, voltar para o seu corpo, e estar disponível para sentimentos sexuais.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Case #29 - Fazendo crescer a pequena rapariga irritada

A Cathy trouxe a questão do 'ressentimento relativamente ao pai'. Perguntei-lhe o que a ressentia, ela respondeu que ele se tinha divorciado da sua mãe quando ela tinha 4 anos.
Explorei a natureza do seu terreno. Isto tinha acontecido há 20 anos, e ela apenas tinha visto o seu pai 10 vezes desde essa altura. Ela sabia muito pouco acerca dele.
Acreditava que a sua mãe era a vítima - o seu pai teve um caso, e depois voltou a casar.
Ela não fez qualquer esforço na sua vida adulta para contatar com ele. Quando lhe perguntei porquê, ela respondeu que anteriormente ele trouxe a filha do segundo casamento e a Mary sentiu extremos ciúmes ao ver a afetuosidade que ele tinha com a sua meia-irmã.
Eu disse-lhe que não ia trabalhar a questão do divórcio dos seus pais, ou o seu ressentimento sobre isso (devido a isso não estar realmente centrado na sua questão). Contrariamente, eu queria apenas trabalhar com ela como adulta, e descobrir o que ela precisava de fazer no presente.
Ela estava relutante, mas as minhas fronteiras eram claras.
Contei-lhe a história do meu próprio divórcio e a conversa que tive com a minha filha mais velha quando ela cresceu, e a falta de informação que ela albergava.
Disse-lhe que estava disposto a apoiá-la a encontrar as suas próprias conversas com o seu pai, mas não a manter-se no papel de desamparada, vítima ou sem poder.
Ela tinha herdado as histórias da sua mãe, e tinha sido colorida por estas. Como adulta, ela tinha as suas próprias escolhas para exercitar e podia descobrir diretamente do seu pai qual era o seu lado da história. Ela ainda não tinha feito isso, então o meu foco era avançar para isto futuramente, em vez de tentar revolver sobre o passado.
Além disso, enquanto falávamos sobre este assunto a Mary tinha voz de menina e maneirismos. Disse-lhe que compreendia e sentia compaixão por ela ter perdido tanto com o seu pai, mas isso eram agora águas passadas e não um contributo para a terapia, ou que a interação com ele pudesse recuperar esses anos perdidos.
Tínhamos de estar com a parte trágica disso como era, e encontrar os recursos desse ponto.
Isto era uma linha difícil, mas fazer de outra forma tinha sido ajudar e estimular que ela ficasse presa num local sem apoio, querendo para sempre algo que ela tinha perdido.
Por vezes a aumentada empatia pode ajudar as pessoas, mas outras vezes é preciso clarificar as fronteiras, e a forma como seguir em frente em vez de estar constantemente a olhar para trás. No seu eu de pequena menina, ela não tinha escolhas, não tinha capacidade de se deslocar a favor dele.
Ela relatou que se o visse, como em criança pequena, lhe teria batido. Claramente ela estava irritada, e eu achei isso normal. Mas ela não encontrou nenhuma outra forma de se relacionar com ele, e estava ainda irritada da mesma forma que quando era criança.
Então propus uma experimentação: começar de uma posição na sala que ela determinasse como próxima da sua mãe, e caminhar através da sala até ao seu pai. Talvez para ter uma conversa com ele, ou talvez apenas para ficar junto dele.
Ela foi bastante desafiada por este convite, e estava assustada. Fiz tudo o que foi possível para a encorajar, mas também lhe dei escolha. Recordava-lhe com frequência que tinha 24 anos. Pedi-lhe que abandonasse a voz de menina, para a fortalecer em vez de a atolar (ela disse ter dores de costas regulares), e para se deslocar para um lugar de adultez e capacidade de escolha.
Lentamente, ela concordou com a experimentação. Deslocou-se, um passo de cada vez, precisando de bastante apoio em cada passo para não colapsar. Finalmente, ela alcançou a posição do pai, e eu pedi a alguém para desempenhar o papel de pai dela.
Ela achou impossível falar com ele. Então perguntei-lhe o que ela estava a sentir, e pedi que colocasse isso em frases que pudesse utilizar. Fiz isto para meia dúzia de sentimentos, para que ela tivesse uma variedade de coisas para dizer. Ela precisava de mais encorajamento para ser capaz de exteriorizar as suas palavras. De facto, ela fez uns sons de respiração curtos e agúdos que, quando identificados, continham a sua mágoa sobre a atenção do pai para a sua meia-irmã.
Ela queria fazer-lhe algumas perguntas, mas eu direcionei-a apenas para fazer declarações. Salientei a manipulação destas questões, e trouxe-a de volta para as razões que a levavam a querer alcançá-lo.
Finalmente ela falou para ele, dizendo-lhe que estava irritada, magoada, e também satisfeita por o ver. Ela falou essencialmente das suas preocupações e medos. A resposta mais representativa foi que ele estava satisfeito por a ver; isto não era o que ela esperava.
Todo o processo foi muito difícil para ela. Eu tinha de facilitar a experiência, como por exemplo, dizer-lhe que ela estava apenas num grupo terapêutico, que não era verdadeiramente o seu pai e a sua mãe lá, e que ela estava apenas a deslocar-se sobre um chão de bambu, nada mais. Isto reduziu a valência emocional apenas superficialmente. Acompanhei-a em cada passo, treinando, apoiando e desafiando-a a manter-se adulta.
Isto foi um exemplo de 'emergência segura' na experimentação Gestaltista, onde pisámos num terreno geralmente muito difícil, no entanto fazendo-o com tanto suporte quanto necessário.
Isto permite à pessoa ter uma nova experiência.
Contudo, estas experimentações não são prescritivas, e os clientes são encorajados em não as tornar em 'novos' deveres, mas antes a vê-las como formas de exploração da consciência e poder de escolha.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Case #28 - As calças falantes

A Nancy abrangeu toda a variedade de questões. Ela sentia que existia uma falha entre a autenticidade e o seu comportamento. Tinha uma criança do seu primeiro casamento; tem havido muito pouco conteúdo no relacionamento, raramente vivendo juntos.
Falou sobre o seu segundo casamento, ter tido vários abortos, e depois o seu marido querer outra criança mas ela, na verdade, não. Falou sobre ser muito feliz com o seu segundo marido, mas por vezes escondendo dele a sua participação em workshops. Falou sobre não ser fisicamente forte, e querer mudar isso.
Salientei que uma questão leva à outra, e que nenhuma parecia fixar-se, para aprofundar, para ser possível uma centração. Na verdade, ela disse que outros terapeutas tiveram dificuldade em segurá-la.
Perguntei-lhe o que queria de mim: 'ser salva' respondeu ela. Expliquei-lhe que havia uma parte de mim que ficaria deliciado em tentar salvá-la, mas que isso, até agora, não parecia estar a funcionar muito bem; e que outra parte de mim queria dar-lhe poder, mas que isso parecia também não funcionar.
No início da sessão reparei nas suas calças - um design bastante complexo e colorido. Diversas vezes dei por mim a reparar nelas. Também reparei na sua boca - ela tinha muitas expressões e, com frequência, mordia o lábio ou mostrava os dentes de forma particular.
Comentei ambos. Ela não tinha consciência da sua boca, e não estava interessada nas suas calças.
Após alguma discussão, voltei às suas calças, e sugeri que descobríssemos se elas nos poderiam ajudar a determinar as questões para trabalhar.
Perguntei-lhe que aspeto destas ela realmente gostava. Ela mostrou uma pequena área em volta do tornozelo, e apontou para três cores diferentes, descrevendo-as como tons quentes e tons frios.
Então pedi-lhe para 'ser' cada cor, e para se descrever a si mesma. Ela falou de um eu caloroso, solarengo, entusiasta e brilhante. Depois um eu fresco, pensativo, que gostava de estar sozinho. E um ser gelado, calculista e racional.
Eu dei-lhe as minhas respostas a isto. Quando chegou ao último, ela reagiu imediatamente, antecipadamente declarando que esta parte não estava bem, e que se culpava a si mesma.
Verificou-se que ela tinha muitos deveres, tornando aquela parte errada. Perguntei-lhe de onde vinham - da sua mãe. Então arranjámos uma almofada para fazer de sua mãe, e falou com ela, declarando a sua ligação e também as suas fronteiras em volta da lista de deveres.
Depois havia a sua anterior sogra que, de certa forma, tinha sido 'ideal', mas ainda com mais obrigações. Pedi-lhe que imaginasse a sogra na almofada e, novamente, que estabelecesse a sua ligação e também os seus limites.
Voltei, de cada vez, à parte em queela era fria e calculista, tentando validá-la. Cada vez que ela começava a pousá-la, eu perguntava se ela queria deixar os deveres a dominarem, e ela respondia 'não'.
Finalmente, ela estava capaz de me ouvir, enquanto lhe falava do meu próprio eu calculista. Eu disse-lhe que se estivesse no modo de trabalho/empresário, ou a sentir-me muito fundamentado, que podia confortavelmente estar com essa parte dela. Ou que se estivesse no meu prórpio modo frio/calculista, que também estaria bem com isso. Mas que se estivesse a sentir-me vulnerável ou necessitado, que podia sentir-me ferido por este.
Ela foi capaz de me ouvir sem contrariar, e de receber o meu reconhecimento. Ela disse 'mas esta é uma parte que eu quero mudar, na medida em que pode magoar as pessoas'. Eu respondi 'estou mais interessado no seu reconhecimento de que esta é mesmo uma parte de si, e em quando está nesse local - isso é o que me faz sentir seguro consigo'.
Ela compreendeu que não era importante ver-se livre dessa parte, ou até reformulá-la, mas simplesmente reconhecer a sua existência.
Nesta sessão, foi difícil ter um princípio. Cada vez que ela começava com uma figura clara, mudava. Isto, em si mesmo, importava atentar - a mudança do seu foco atencional. Escolhi não me focar nisso, na medida em que não havia muita ligação entre nós. Joguei um pouco com a possibilidade de 'salvação', mas decidi não continuar por esse caminho porque, uma vez mais, não iria perdurar.
Então, em vez de continuar a jogar ao 'gato e ao rato' na procura de um tema claro, voltei ao que era figurativo para mim - as calças. O facto de ela não atribuir significância podia implicar que conseguisemos encontrar algo que emergisse, independentemente da sua resistência a trazer as figuras. Logo de seguida, ela nomeou três partes importantes de si mesma.
Depois explorei o relacionamento entre estas - a minha resposta a cada uma.
A sua resistência para a terceira parte evocada claramente apontou para onde o trabalho tinha de ser feito: lidar com os deveres, e com as suas fontes.
Depois de fazer isto, ela estava capaz de trazer essa parte para a relação comigo, e consigo mesma.
O resultado consistiu na resposta que procuramos no processo Gestaltista: a integração.

sábado, 2 de agosto de 2014

Case #27 - Retidão moral

O John dirige uma pequena empresa. A sua preocupação era ser moralmente correto. Num mercado em que 'tudo vale', ele tinha princípios muito fortes e mantinha-se firme a estes. Era também assim com a sua família - levando os seus deveres de forma séria, respeitando os seus pais, e seguindo as tradições.
Ele sentia-se pesado e sobrecarregado, e questionava se eventualmente a sua retidão moral era mesmo uma coisa boa, ou se, de facto, o seu emprego podia falhar no final por causa de ele não ser capaz de implementar os truques desonestos que os seus concorrentes usavam (como espionagem industrial).
Em primeiro lugar procurei reconhecer as forças da sua forma de estar no mundo, mas isto não o demoveu muito. Ele estava preocupado com que, no mundo real, isto não lhe fosse servir, mas ao mesmo tempo ele queria manter a sua estrutura moral rigorosa.
Então pedi-lhe para identificar as polaridades - uma personagem da história que representasse um homem moralmente correto, e depois alguém que representasse um personagem 'qualquer coisa serve'.
Ele selecionou os dois, e pedi-lhe que se colocasse neste papéis alternadamente, tendo um diálogo entre ambos. Ele achou extremamente difícil, e continuou a querer fugir do papel. Perguntou 'não posso apenas unir os dois'? Mas a integração não surge assim tão facilmente...
Quando no papel concordante, ele disse que seguia uma tradição longa e profunda de ser Chinês, enquanto no outro papel comprometia esses valores.
Então ficou claro - o grau de importância para ele em honrar a tradição, uma profunda ética da cultura Chinesa.
Sugeri que saísse de ambos os papéis, que se sentasse de volta no seu lugar, e que falasse com cada uma das partes. Ele reconhecera a tradição, e depois reconhecera que talvez pudesse aprender algo útil do outro lado.
Isto foi um grande passo para ele.
Sugeri que se colocasse na posição de Imperador, tendo dois assessores em vez de um, e que a sua decisão seria a final.
Ele sentiu-se muito melhor a ouvir isto, e podia reconhecer o valor do 'novo' assessor.
Ele mencionou que havia uma dimensão destas na sua vida pessoal, onde levava as coisas com muita seriedade, que nunca sentiu que podia ter uma pausa.
Então, identificámos outros dois assessores, um que o recordava das suas responsabilidades, o outro mais irreverente, irresponsável, e orientado para a diversão.
Novamente, ele sentiu-se aliviado em ter dois assessores e ser capaz de tomar a decisão final. Pedi-lhe que identificasse uma pessoa atual com um papel divertido, e ele mencionou o seu primo. Previamente, ele tinha visto o primo sob uma perspetiva negativa, mas agora conseguia apreciá-lo, e podia considerar passar mais tempo com ele.
Usamos as orientações do Gestaltismo para as polaridades, reconhecendo que qualquer qualidade existe sempre um oposto implícito. A sobre-identificação com um lado produz uma divisão. O processo Gestaltista é orientado para a integração, que fundamentalmente ocorre através de um processo atual, estando em contato pleno com ambas as partes, mais do que uma simples compreensão intelectual.
Ele não era submisso ao formato usual da experimentação (o discurso direto), então devemos estar sempre dispostos a ser flexíveis em voltar a desenhar a experimentação no local, em resposta à vontade e feedback do cliente.

domingo, 27 de julho de 2014

Case #26 - Dando e recebendo

A Tracy adorava viajar sozinha. Ela gostava de ser uma mulher independente. Ia a casa poucos dias em algumas semanas, e isso servia-lhe. Tinha o seu próprio apartamento na cidade. Ela dizia que ele servia ao seu marido, porque ela tinha padrões elevados e inevitavelmente não haviam argumentos.
Ela sentia que a vida era dela e, agora que o seu filho era crescido, não tinha de se preocupar com as responsabilidades da família. Ela gostava do seu estilo de vida e do seu trabalho.
Contudo, a sua preocupação é que começava a sentir pânico quando estava em casa após um período curto de tempo.
Examinando mais profundamente, perguntei-lhe sobre os seus pais. Ela teve uma certa liberdade enquanto crescia - a sua mãe estava ocupada com numerosos filhos, o seu pai deu-lhe alguns previlégios ao tratá-la 'um pouco como um rapaz', embora também fosse carinhoso com ela. Contudo, quando ela teve atenção foi frequentemente em formato de pressão para o desempenho, ou para ser uma boa criança. O cerne da questão era - a situação era uma de duas. Ou ela tinha atenção ou tinha liberdade, mas não havia um meio termo.
Seguidamente, sugeri uma experimentação para explorar como isto funcionava com o seu marido.
Ficámos de pé, frente-a-frente. As mãos entrelaçadas representando a procura de atenção. As mãos a empurrar representando a liberdade.
Logo de seguida, ela ficou perturbada. Ela disse que não queria estar na posição de procura de atenção, era muita pressão e sentia-se em pânico.
Perguntei-lhe com que frequência sentia, com a sua concordância, que queria estar naquela posição naturalmente com o seu marido. Ela disse que queria sentir maior liberdade do que tinha. Perguntei-lhe o quanto, sem sentimento de dever. Ela respondeu que voltaria a casa duas vezes ao ano durante alguns dias, e o restante tempo para si mesma.
Este não era o meu modelo de relacionamento, mas estava disposto a aceitar que podia ser o dela.
Então, nesta base, continuámos. Ela apenas queria estar na posição de querer atenção de forma muito breve, mudando logo para a posição de querer liberdade. Seguidamente, começámos a empurrar fortemente.
Ela ficou em contato com bastante ressentimento. Sentiu que, quando estava com ele, ele queria sempre algo dela e que ela estava sempre a dar, e nunca a receber. Então, a sua irritabilidade surgiu e o ciclo tornou-se claro. Ela empurrava e ele tornava-se necessitado, ela empurrava mais, etc.
Então sugeri que adicionássemos uma nova posição de mãos: dar. Claramente, ela não tinha mais para dar. Mas eu adotei a posição de dar como marido, e pedi-lhe que ficasse na posição de querer atenção, de receber.
Isto também trouxe bastante 'ofensa' para a sua parte. Ela sentiu que nunca tinha recebido dele, e que tinham passado anos demais onde ela apenas dava e dava.
Não obstante, pedi-lhe que viesse para o presente e que apenas permitisse a si mesma a experiência de lhe ser dado, assim que ela expressou o seu ressentimento. Ela concordou, e deixou-se levar profundamente pelo receber. Contudo, rapidamente se sentiu desconfortável - o custo do receber implicava que ela teria novamente de dar, e ela sentia receio disso.
Então um aspeto mais profundo do ciclo foi desvendado.
Sugeri que alternássemos. Eu dava-lhe a ela, ela devia receber, e então assim que se sentisse desconfortável podíamos mudar. Ela consegiu dar de volta, para aliviar a sua 'dívida', (e eu podia receber) mas apenas enquanto ela se sentia confortável.
O seu ritmo tornou-se bastante rápido, apenas uns segundos em cada posição. Contudo, ela sentia-se bastante confortável com isto, e sentia que não permanecia demasiado em cada uma das posições.
A experiência foi profundamente penetrante para ela, e permitiu-lhe uma experiência pela qual ela ansiava, mas da qual tinha desistido.
A significância não era isto ser um 'reparo' ou 'cura' para a situação, mas uma exploração da consciência que produzia uma mais profunda consciência de si mesma, da sua participação nos ciclos, e que também proporcionava uma nova experiência.
Estas novas experiências que surgem das experimentações Gestaltistas não são 'soluções', mas expandem o mundo da pessoa e podem promover um novo ponto de referência sobre o que é possível. Também podem proporcionar uma experiência de cura, quando algo não tem estado disponível no ambiente.
O processo começou pela exploração do campo contextual. Uma vez que este ficou claro, avançámos para uma experimentação de aqui e agora. Para fazer isto ela tinha de sentir que não estava organizada por nenhum dever, mas que podia ser realmente sobre o seu ritmo.
Utilizar-me a mim mesmo como participante significava que me podia sintonizar com onde ela estava, o que ela precisava, e obter compreensão direta do seu sistema.
Também significava que podia responder de novas formas. Eu modifiquei a experimentação para incluir um terceiro gesto de 'dar', e isto era claramente o que faltava, além de ser o ingrediente principal. Também permiti que ela experimentasse que lhe dessem, sem que o custo fosse demasiado elevado.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Case #25 - 10,000 flechas

A Mary divorciou-se duas vezes, e agora vivia com o seu marido anterior, o pai do seu filho.
Inquiri-a sobre a vida.
Eles gerem um negócio juntos, mas discordam na abordagem. Ao longo do tempo, ele começou a ficar violento com ela. Isto continuou por um período de anos.
Então ele exigiu-lhe o divórcio, e subsequentemente procurou um relacionamento com uma das empregadas que trabalhava na empresa.
Depois de ser rejeitado por esta mulher ele pediu à Mary para voltarem a casar, tendo ela concordado.
Ele continuou a bater nela.
Finalmente, após mais alguns anos, ela estabeleceu um limite à violência e divorciou-se dele.
Alguns anos mais tarde voltaram a morar juntos, mas desta vez sem violência, e ela definia agora a relação como 'satisfatória', e não se encontra infeliz com isto.
Contudo, relatando tudo isto, claro que ela sentiu muita tristeza a emergir.
Perguntei-lhe como tinha sobrevivido; recordou o que a sua própria mãe e avó tiveram de viver (a não violência).
Perguntei-lhe o que ela sentia. Ela respondeu 'como 10,000 flechas no meu coração'.
Compreendi que ela tivesse guardado todo o sofrimento em si, em vez de o inflingir nos outros, mas expressei a minha preocupação sobre o efeito nela.
Perguntei-lhe como foi falar comigo, como homem - ela disse sentir-se segura.
Disse-lhe que um homem tinha colocado essas flechas ali, então como homem, queria ser capaz de as remover.
Propus chegar perto e, de forma muito lenta, com o seu completo consentimento em cada passo, puxar uma flecha para fora.
Eu fiz isto, deitando a flecha para o chão e reconhecendo como ela tinha sido ferida tão severamente.
Avaliei como ela se sentia: ela relatou sentimentos de sofrimento, mas também se sentiu profundamente tocada, e um pouco aliviada.
Então repeti este processo mais duas vezes, de cada vez a reconhecer um diferente aspeto da sua experiência.
Ela sentiu algum alívio, mas também dormência nas suas mãos. Isto era um indicador de que ela já tinha feito o suficiente.
Finalmente, eu sugeri que devia ser desempenhado um ritual com as três flechas, e dei-lhe uma gama de opções. Ela sugeriu o ritual de as enterrar.
Então contei-lhe a história de uma viagem imaginária que os dois fomos fazer, numa floresta, enterrando as flechas, dando reconhecimento, e deixando-as na terra.
Pedi-lhe que fizesse um trabalho-de-casa, repetindo o processo que tínhamos feito uma vez por dia, na sua mente, com mais três flechas, e depois o ritual de as enterrar.
Neste processo, primeiro mapeei o seu território, para compreender o suficientemente o contexto. Depois utilizei o facto de ser um homem para ser parte do processo de cura. Entrei lentamente, avaliando como era para ela em cada passo, e dando diversas escolhas.
Trabalhei com a metáfora que ela deu das flechas, levando-a a sério, e fazendo começar o processo de cura. O factor significativo não foi o número de flechas removidas, ou o alívio da dor como algo permanente, mas o facto de termos tido um princípio que fez a diferença, e que ela agora tinha forma para lidar consigo mesma.
A experimentação Gestaltista aqui foi desenhada diretamente com os materiais e palavras que ela cedeu, e funcionou, primeiramente, porque a relação entre nós estava consolidada.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Case #24 - A criança abandonada

Passei algum tempo a ligar-me à Jane no início da sessão. Reparei no top amarelo dourando que ela estava a vestir. Ela disse que gostava de cores fortes, que traziam calor, e que ajudavam a lidar com o sentir-se triste. A Jane explicou como gostava de estar entre pessoas entusiastas e brilhantes; se elas não o eram, ela não tinha interesse.
Perguntei-lhe com o que ela queria trabalhar - ela falou o trabalho, o pai, e o namorado. Pedi-lhe que escolhesse um, e ela escolheu o trabalho.
O que quer que a pessoa escolha está bem, e é o mais provavel de estar perto da marca.
Perguntei-lhe qual era especificamente a questão - ela relatou ser auto-centrada e ir atrás do que queria, independentemente dos outros.
Eu reconheci os aspetos positivos disto no trabalho, e podia também compreender como isso poderia irritar os outros.
Então ela revelou que ansiava por reconhecimento e que, de facto, era adotada. Os seus verdadeiros pais abandonaram-na debaixo de uma ponte.
Isto, para mim, muda as coisas de forma significativa. Para revelar um marco tão difícil e importante, significava que ela me estava a confiar algo muito pessoal e íntimo. Mais do que aceitar isso como informação útil e relevante acerca dela, e como contexto da sua auto-centração, eu levei isto de forma muito séria, como o profundo choro por 'reconhecimento' que ela dizia precisar.
Assim, também entendi a sua necessidade de calor.
Perguntei-lhe o que estava a sentir, mas ela não conseguia identificar mesmo nada. Além das suas pernas estarem frias por causa do ar condicionado.
Então perguntei-lhe sobre sentir-se fria no relacionamento, e salientei que esta era a polaridade oposta do calor que solicitava nos relacionamentos.
Mas eu não queria perder tempo a falar sobre aquilo. Perguntei-lhe quanto tempo ela ficou debaixo da ponte. Ela não sabia, mas pedi-lhe hipoteticamente. Ela pensou em um dia.
Claramente, ela teria sentido frio durante esse tempo.
Após evocar esta memória de ocorrência traumática, eu queria garantir que algo diferente acontecia. Perguntei-lhe se podia aproximar-me, e se ela podia colocar a sua mão no meu ombro.
Ela disse que sim, isto era o que ela sempre procurara.
Então fizemos isso, e eu pedi-lhe que apenas respirasse o calor que conseguisse sentir. Demorou um pouco; durante algum tempo ela não conseguia fazê-lo. Mas depois começou a conseguir; a sua respiração era rápida, como na infância. Finalmente ela abrandou; perguntei-lhe o que sentia e ela respondeu calor, mas as suas pernas continuavam frias. Cobri as suas pernas e continuámos. Ela relatou sons do seu estômago. Perguntei-lhe sobre a sua experiência, ela falou sobre tentar perder peso, e tentar fazer dieta.
Claramente isto tinha a ver com fome, com calor emocional. Então pedi-lhe para colocar a mão sobre o seu estômago, e fiz o mesmo com ela, pedindo-lhe para respirar colorosamente.
Fizemos isto por um período maior de tempo e depois, avisando-a, eu puxei-a para trás.
Ela disse que tinha estado em muitos workshops, mas que nunca tinha tido esta resposta aos seus problemas.
O processo Gestaltista é guiado pelo foco no relacionamento aqui e agora, e também pelo contexto de campo, e pelo que estava a faltar lá. Tudo o que ela tinha falado começava a juntar-se - a necessidade de reconhecimento, o desejo de calor, a sua fome e excesso de alimentação, e o seu interesse de auto-sobrevivência.
Então forneci-lhe reconhecimento ao mais profundo nível que me foi possível, maioritariamente não-verbal, e ao nível do toque; como a comunicação em criança é principalmente experimentada, ao nível do toque não-verbal.
O trabalho facilitador pode ser útil na terapia, mas as alterações mais profundas vêm do relacionamento. Sintonizar as necessidades relacionais do cliente é a chave, e depois encontrar uma forma para essas necessidades resultarem num impacto profundo.

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