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quinta-feira, 5 de março de 2015

Case #57 - Convite à conspiração

Assim que Annabelle começou a falar fiquei com um sentimento desconfortável. Claramente ela queria contar a sua ´história´, de como tinha sido enganada de diversas formas, como tinha valentemente tratado de ajudar outras pessoas na família, etc. Dei por mim a sentir-me impaciente, e sem querer realmente escutá-la. Podia ver que ela falava sem parar, preenchia o espaço, sem realmente dar lugar a uma intervenção - parecia querer apenas queixar-se.
Passado um bocado, fez-me uma pergunta relacionada com a história. Uma vez mais eu senti-me incómodo, pois ela parecia ter muitas perguntas... mas queria-me como uma espécie de um especialista para resolver a sua situação.
No entanto, não disse nada a respeito dos meus sentimentos. Conversei com ela, mas recusei responder a todas as suas perguntas, pedindo-lhe em vez disso que as transformasse em afirmações.
Isto é uma indicação comum em Gestalt, pois muitas vezes as perguntas são uma forma de evitar a responsabilidade, ou assumir-se numa relação. As afirmações permitem à pessoa apropriar-se de quem é, o que sente e o que quer, de uma maneira mais directa.
Não disse nada, pois podia sentir as minhas próprias reacções, e queria entender-me melhor naquele local onde me encontrava. Sentei-me com os meus sentimentos, e entrei em contacto com o que estava a ser a minha experiência.
De cada vez que Annabelle falava, era da mesma forma, e eu tinha as mesmas reacções, incluindo pedir-lhe para fazer afirmações. Pelo menos isso eu podia fazer para interromper o padrão, e não queria ser arrastado para o papel que ela me oferecia - o de grande sábio.
No entanto, isso foi o sufieciente para a deixar curiosa. Colocá-la de volta na sua própria experiência ofereceu-lhe um tipo de experiência diferente, e por eu tê-lo feito de um modo neutral, ela foi capaz de começar a notar os seus sentimentos um pouco mais.
Estava a debater sobre autenticidade. De repente ela disse - ´Quero um feedback honesto da tua parte, como me vês?´
Respirei fundo, pois aqui estava uma abertura para aprofundar a relação, mas também tinha que prosseguir com cautela uma vez que notei a sensibilidade que esta pergunta comportava. Com esta pergunta estava disposto a comprometer-me, pois parecia-me mais autêntica.
E como me tinha sentado com a minha própria experiência por algum tempo na companhia dela, pude nomear algo, não directamente sobre ela, mas sobre a minha experiência pessoal.
Disse-lhe - ´De cada vez que falas, eu experiencio um convite para ser conspiratório... sinto-me arrastado a concordar contigo, a confirmar a visão que tens da tua família e de como tens sido tratada. E isso deixa-me desconfortável, pois não te quero rejeitar, nem juntar-me a ti.'
O que fiz foi nomear a minha experiência pessoal autêntica de um modo que lhe deixou espaço a encontrar-se a si própria em resposta. Foi a minha tentativa de uma afirmação que não a envergonhasse - muito importante ao dar feedback.
Annabelle abriu-se num sorriso. Disse - ´Obrigado. Outras pessoas já me tinham dito o mesmo, mas nenhuma tão claramente como tu. Eu sei a que te referes. Sinto como se estivesse a tentar pôr as pessoas do meu lado.´
Tivémos então um diálogo autêntico muito valioso. Salientei que havia outros aspectos de ser conspiratório - podia ser algo divertido, como às vezes as crianças costumam brincar. Explorámos diversas facetas da conspiração, e Annabelle relaxou visivelmente, bem como eu! Houve um câmbio na minha experiencia... depois de ser capaz de nomear a minha experiência. Ela experienciou ser vista.
É este o contacto Eu-Tu que buscamos em Gestalt, e é a base para a o aprofundamento da relação.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Case #56 - A menina necessita atenção

Wendy falou-me a respeito de querer um companheiro. Estava divorciada e geria uma empresa. Contou-me a quão impaciente era para com os seus empregados, de como era muito eficiente e nunca mostrava a sua vulnerabilidade. Contrastou tudo isto com a paciência que reconhecia em mim.
Debati temas de poder com ela - a capacidade de ser eficiente e directa, o prazer de estar no controlo, ser a chefe.
Parecia muito acanhada enquanto eu falava, remexendo as mãos... fazia-me lembrar uma menina. Perguntei-lhe a idade que sentia ter - disse-me 10 anos, e então indaguei a respeito do que lhe tinha acontecido nessa idade.
Perguntei-lhe sobre paciência na sua família. O pai tiha-a esbofeteado quando ela tinha 10 anos porque as suas notas na escola tinham descido. De facto, ele batia regularmente no seu irmão mais novo. Mas em público, era um homem paciente, que tinha tempo para dedicar às pessoas.
Chamei a atenção para o facto da paciência que ela via em mim como terapeuta a poder deixar desconfiada pois a questão que se punha era: será que eu iria explodir como o seu pai?
Ela concordou. Disse-me que o problema era que ela não tinha muita confiança nos homens. O seu primeiro marido também era impaciente com ela, apenas interessado naquilo que ela poderia fazer por ele. Disse-me que apenas queria encontrar outro companheiro.
Revelou-me que a razão pela qual as suas notas tinham descido era porque estava num colégio interno, no qual era vítima de abusos, muito frequentes e maldosos. Os seus pais não sabiam disso, além de não se interessarem. Ela sentia-se muito sozinha.
Sentei-me perto dela, falei com ela, reconhecendo a sua sensibilidade, a sua vulnerabilidade, e a sua necessidade, enquanto criança, de ser vista como a pessoa que era, ao invés de fazer parte dos planos que tinham para ela. Alguém que se interessasse pelos seus problemas, em vez de apenas querer saber das sua notas.
Começou a chorar, suavizando-se ainda mais. Declarei-lhe o meu interesse nela, sem segundas intenções de querer que ela fosse uma pessoa diferente. Parecia faminta por este tipo de atenção, e deixámo-nos estar sentados por algum tempo, enquanto eu a encorajava a absorver esta experiência.
Salientei que esta parte sua necessitava cuidado, atenção, e crescer de uma forma natural, antes de ela desenvolver um núcleo mais forte com o qual estar numa relação.
Em Gestalt não nos deixamos levar simplestemente pelo tema que o cliente nos apresenta - o que também é importante é aquilo que eu me dou conta como terapeuta - algo com o qual o cliente pode não estar de todo em contacto. Trazemos então isso completamente para a tomada de consciência no presente, e exploramos o contexto - geralmente a família, mas nem sempre. Essa informação do Campo é então trazida de volta ao momento presente, e à relação terapêutica.
Fazer isto fornece neste caso uma agenda terapêutica clara, um processo pelo qual pudémos continuar a trabalhar no tema inicialmente apresentado por ela - querer um outro companheiro.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Case #55 - O vazio criativo

Betina contou-me a respeito de ter medo que o marido morresse - havia um historial de mortes precoces na família dele, um cartomante tinha-lhe dito que ele poderia morrer, e ele ficava acordado até tarde todas as noites.
Enquanto conversámos, tornou-se claro que o tema era que ele a negligenciava - ficando fora de casa até horas tardias todas as noites, bebendo e jogando com os seus amigos; quando voltava para casa, mostrava-se barulhento e desconsiderado, acordando-a. Passava pouco tempo com a família, e tinha gasto poupanças familiares no jogo.
Isto tinha-se passado durante a maior parte do seu casamento, há já várias décadas. Nos sistemas familiares que têm um elemento abusivo, que se mantém por algum tempo, há um aspecto da dinâmica que é co-criado, geralmente relacionado com o contexto no Campo.
Actualmente, ela andava zangada, mas eles raramente falavam um com o outro.
Assinalei que juntamente com a dor que sentiria se ele morresse, provavelmente também se sentiria aliviada. Ela concordou. Em Gestalt estamos interessados em ambos os extremos de uma polaridade.
Perguntei-lhe o que desejava ela da minha parte - respondeu-me que queria alguma orientação em relação ao que fazer.
Também me revelou que o seu pai tinha tido um comportamente parecido - passando tempo fora de casa até noite tardia, a jogar. Essa era a indicação do campo.
Tornou-se claro para mim que esta era uma situação séria, arraigada e muito debilitante.
O seu marido tinha confidenciado com a sua cunhada, que depois criticara Betina.
Enquanto me contava acerca disto, notei que se beliscava. Convidei-a então a ´beliscar´  a sua cunhada, e pus uma almofada diante dela. Mostrou-se muito relutante, beliscando-se a si própria ainda com mais força. Fui um pouco intrometido - insisti que ela experimentasse na almofada - salientando que era ´apenas uma almofada´ e que não haveria repercussões. Foi difícil para ela, mas acabou por fazê-lo, enfiando os dedos na almofada. A isto chamamos ´retroflexão´ em Gestalt - fazer a si próprio o que se gostaria de fazer a outrem.
Convidei-a a usar palavras também. Foi então que me revelou que os seus irmãos também se intrometiam no assunto e a criticavam.
Nesse momento parei o que estávamos a fazer. Todo o processo revelou uma impotência arraigada, falta de apoio e um padrão intergeracional com as características de uma relação abusiva. Não era algo que pudesse ser resolvido comigo a dar indicações simples do género ´não faças isso´. Além de que a quantidade de apoio necessária para sair dessa situação parecia gigantesca, e irrealista de se tentar numa única sessão - é importante reconhecer as nossas limitações como terapeutas, e não tentar algo que dê falsas esperanças.
Aumentei então a sua tomada de consciência indo noutra direcção. Perguntei-lhe se achava que todos os homens eram egoístas, ao que me respondeu que não. Partilhei então com ela que eu sim achava que os homens eram um pouco egoístas. Respondeu-me - ´Bem, eu deixo que o sejam´. Desta forma, ela deu um passo em direção a assumir alguma responsabilidade, sem que eu a tivesse que ´confrontar´.
Olhei para ela, e disse-lhe que podia ver quão infeliz ela estava. Foi um momento de encontro. Eu não a queria salvar do local em que se encontrava ou solucionar o que quer que fosse - embora claro que queria uma vida diferente para ela.
Sentei-me com ela, nesse local. Dei nome àquilo que via - uma situação que era também familiar à experiência da sua mãe. Uma situação que se alastrava há décadas. Uma situação que parecia apenas ir de mal a pior. Uma situação em que se encontrava estagnada, apesar de ter algum conhecimento psicológico.
Destacar a natureza depressiva da situação foi uma forma de não a minimizar. Não comentei, julguei ou sugeri, apenas reconheci. Desta forma, eu podia vê-la, e sentar-me ao seu lado, olhando para a realidade de como as coisas são.
Em Gestalt chamamos a isto ´sentar-se com o vazio criativo´. Não parece criativo, mas pelo facto de nos sentarmos com ele, sem nos afundarmos ou fugirmos, algo diferente pode emergir.
Ela disse, ´Bom, nós deixámos de falar um com o outro, e isso é um pequeno alívio´. Eu entendi - e salientei que, de facto, o casamento tinha morrido. E posto isto, que se segue?
Perguntei-lhe qual a percentagem que ela achava que havia de alguma esperança de mudança. Estava à espera de um valor extremamente baixo. Se me tivesse dito zero, teria trabalhado com ela no sentido de como sair de lá.
Mas surpreendeu-me ao dizer 15%,o que indicava haver uma hipótese de as coisas puderem mudar.
Perguntei-lhe o que isso lhe permitia fazer - aqui estava a porta de entrada para a possibilidade de acção.
Disse que podia descobrir maneiras de ser mais feliz. Isto era algo bom - uma solução subjectiva para começar.
Quando lhe perguntei que outras coisas poderia fazer, disse-me que se podia dedicar mais aos filhos, mas eu salientei que isso era o que ela já fazia para lidar com o casamento.
Identificou outras formas de como ser mais feliz. Mas eu queria mais da parte dela - algumas acções objectivas que poderia tomar para mudar a relação.
Contou-me que o marido se queixava que ela já não preparava o pequeno-almoço. Assim sendo, ele ainda queria algum cuidado, e sentia saudades disso.
Perguntei-lhe então que ´quid pro quo´ ela lhe poderia pedir, caso lhe fizesse o pequeno-almoço. Respondeu-me,  ´tempo com a família´. Soou-me como um bom começo - não muito íntimo, mas um sinal de algo diferente. Pedi-lhe que quantificasse quanto queria e com que frequência. Sugeri-lhe então que ela se oferecesse para fazer pequeno-almoço esse número de vezes.
Salientei que se ela queria criar uma nova relação a partir das cinzas, isso levaria vários anos, e iria necessitar de muito apoio ao longo do processo.
Em Gestalt, ficamos satisfeitos com um pequeno passo - integrado - de cada vez.
Neste caso, algo emergira do vazio, e fora tudo obra dela, ao invés do seu convite inicial a que eu lhe dissesse o que fazer. A minha ´orientação´ foi antes de mais dirigir a sua atenção para o ´que existe´, e em seguida ajudá-la a enraizar-se na figura emergente daquilo que tinha de facto energia para fazer.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Case #54 - Aproximando Deus e o diabo.

Angelica era médica, apesar de ter mudado de profissão recentemente. Tinha um filho e desejava outro, mas também estava muito assustada com ter mais. Disse-me, à medida que fomos estabelecendo contacto, que estava preocupada com a forma como era vista aos meus olhos. Fui-lhe dizendo o que observava na realidade, para criar uma base para a relação... incluindo uma linda bracelete que ela usava, oferecida pelo marido.
Tinha sido ginecologista, e como parte do seu trabalho, tinha realizado abortos. Nessa altura, não sentia nada ao fazê-lo, era apenas o seu trabalho. Mas na verdade, também não sentia realmente alegria quando ajudava a dar à luz um bebé - era igualmente apenas parte do seu trabalho.
Anos mais tarde, tinha começado terapia e entrado em contacto com os seus sentimentos. Isso incluiu a dor de ter realizado esses abortos. Não se prendia com crenças ou ideologia - tinha a ver com o impacto emocional de mais de uma década de bebés abortados.
Mais recentemente, tinha tido um aborto espontâneo, e viu-o como uma espécie de castigo. Relatou-me que sentia dor de cabeça, mas que o resto do corpo  estava entorpecido. Foi muito intenso para ela falar disto, estava a chorar. Sugeri-lhe uma pausa. Quando há demasiados sentimentos para a pessoa integrar, interrompe-se o processo. Assim, aprofundar a terapia nem sempre é algo bom. A pausa permitiu-nos dar um passo atrás, e eu estabeleci um contacto relacional, contando-lhe de como a via nos meus olhos - sentia uma grande compaixão por ela, e não tinha julgamentos negativos. Ela tranquilizou-se um pouco.
Perguntei-lhe o que sentia no seu ventre. Respondeu-me - negrume. Uma vez mais, a intensidade foi demasiado para ela. Estava a retirar-se. Pedi-lhe então que estabelecesse contacto visual - caso contrário ficaria num sistema fechado. Disse-lhe que a sua bracelete fazia-me pensar que haveria certamente mais cores nela - a bracelete tinha algumas contas negras, mas também alguns cristais, e uma linda forma rosada. Referi que o cor-de-rosa seria parecido à cor do seu útero - como médica ela sabia que isto era verdade. Ao fazer isto enraizei-a em algo mais sólido que a sua projecção ´negra´, e conduzia-a em direcção ao sentimento da vida e do sangue.
Enquanto falávamos, ela cerrava os seus punhos. Fiz-lho notar - direcionamos a tomada de consciência para pontos chave da expressão da energia, ajudando a que possam emergir mais completamente.
Disse-me sentir raiva, o que aconteceu diversas vezes durante a nosssa conversa. É aquilo que em Gestalt se chama ´figura emergente´, algo paralelo ao tema presente. Pode ser focado, ou exagerado.
Contou-me que se sentia como se estivesse num local escuro, e queria escapar.
A raiva é então uma indicação da energia dinâmica que ela precisava para criar alguma mudança. Mas sugerir apenas algo como bater em almofadas não é necessariamente aquilo que um cliente necessita.
Indguei com quem estaria ela raivosa - consigo própria, respondeu-me.
Perguntei-lhe o que diria a si mesma. Disse-me sentir-se como o diabo, e continuou dizendo a si própria quão má pessoa era, e como merecia não ter mais filhos.
Uma vez mais, convidei-a a fazer uma pausa - eram temas muito dolorosos.
Perguntei-lhe se tinha alguma crença espiritual. Respondeu-me que não.
Salientei que se ela acreditava num diabo, deveria existir algures um deus. Eu andava em busca de algum tipo de redenção neste lugar infernal. Estava a destacar a natureza das polaridades - parte da orientação Gestalt com vista ao holismo.
Ela concordou. Pedi-lhe então que selecionasse dois objectos, representando deus e o diabo.
Agarrou-se ao diabo, mas depois colocou-o ao lado do símbolo de deus. Disse que o deus estava adormecido, e queria acordá-lo. Estava a bater no chão, mas o símbolo continuava a tombar. Ela queria que se mantivesse de pé por si próprio. Foi então que eu intervim como a ´força divina´ e coloquei-o numa posição erecta.
Convidei-a a ser receptiva à figura de deus. Subitamente sentiu-se cansada. Sugeriu-lhe então que fizesse uma pequena sesta. À medida que se encostou a mim, sugeri-lhe que quando acordasse pudesse  sentir a força vital a agitar-se no seu ventre.
Descansou por uns minutos, e de seguida abriu os olhos. Estava de facto disponível para receber a benção de vida do símbolo de deus. Sentia calor no seu corpo, e uma sensação agradável no seu ventre. Colocou então o ´diabo´ atrás do ´deus´... um símbolo perfeito de integração. Reconheceu que na força diabólica havia um certo tipo de poder que ela podia usar.
Em Gestalt tratamos sempre de dar corpo a coisas abstractas, que neste caso era a polaridade. Ela precisava do tipo adequado de apoio para poder então atingir o objectivo - integração.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Case #53 - Beber demasiado, ou dar demasiado?

Tom bebia, demasiado, demasaidas vezes. Tinha-o feito por muitos anos. Às vezes deixava a bebida, às vezes recomeçava.
Abby não era feliz, e tinha-se tornado cada vez mais peremptória a respeito das coisas terem que mudar. O problema era que não mudavam - ele deixava de beber, voltavam a dar-se bem por uns tempos, e então de algum modo, tudo voltaria a recomeçar.
Abby queria uma boa relação. Queria conexão, comunicação, honestidade. Tinham estado juntos por muito tempo, e ela não queria deitar a relação a perder. Ralhar permanentemente não resultava, mas também não funcionava deixar as coisas seguirem o padrão habitual. Abby estava muito frustrada. Tom não parecia capaz de manter as mudanças que ela realmente necessitava. Ela tinha-se tornado cada vez mais frustrada e desanimada.
Não havia dúvidas, Tom tinha um problema com o álcool. Era claro que ele não tinha realmente controlo sobre a bebida, e era também claro que os seus esforços para parar só resultavam por um período de tempo limitado - por vezes 6 meses, mas depois ele retomava.
Abby parecia estar a fazer udo o que podia. Tornou a sua posição clara. Demarcou limites. Acudiu a terapia em busca de ajuda.
Do ponto de vista da Teoria de Campo, a adicção não é algo ´na´ pessoa, mas algo ´na´família ou relação. É mantida por mais de uma pessoa, apesar de neste caso parecer que Abby estava a fazer tudo o que podia para mudar a situação. A sua participação não era clara para ela - ela parecia não querer nada mais que uma relação livre da adicção.
Abby tinha um pai que era controlador, desanimador  e com frequência maldoso. As suas necessidades de sustento, de ser escutada não foram supridas. De tal modo que ela aprendeu a ser uma rapariga prestativa, numa tentativa de obter algum tipo de reconhecimento.
Isto é aquilo a que chamamos em Gestalt um ´ajuste criativo´. Fez sentido nesse então, mas agora, como adulta, Abby estava descobrir que se sentia cada vez mais bloqueada - o ajuste criativo já não estava a funcionar em seu proveito.
Ela identificou que era isto que a tinha levado a ser enfermeira - tomar conta dos outros e das suas necessidades. E era isto que estava a fazer com Tom.
À medida que fomos explorando este tema, Abby deu-se conta que a sua prestatividade continha em si uma espécie de reciprocidade. Se ela desse aos outros, homens, então ela seria útil, desejada, reconhecida, necessária.
E era exactamente esta a situação com Tom. Ele precisava dela, e ficava muito triste se ela se zangasse e se retirasse. Ela não conseguia vê-lo tão triste, e então voltava a aproximar-se.
O ponto chave foi quando identificámos como a sua prestatividade era também uma espécie de manipulação: ´se eu te aportar algo, então vais precisar de mim, e não me abandonarás´.
O que foi importante foi a mudança de perspectiva - agora Abby era capaz de ver mais claramente não apenas o comprtamento adictivo de Tom, mas também a sua própria manipulação repetitiva - dar para receber, ou como chamamos em Gestalt, ´proflexão´.
Este é um exemplo daquilo a que damos o termo ´fronteira distorcida´ - parece que algo está a ser dado, mas na realidade existe um motivo subjacente, pelo que o aspecto da dádiva é condicional, não incondicional.
Este reconhecimento foi dramático para ela - ela pôde reconhecer não apenas o padrão familiar de Tom com a bebida, mas um outro padrão de mãos dadas com esse - o da sua forma manipuladora de dar.
Em Gestalt trabalhamos com tomada de consciência, mas tal não é apenas limitado ao ´aqui e agora´, também inclui a tomada de consciência do nosso Campo, com todas as suas camadas complexas, e especialmente os nossos padrões de comportamento escondidos.
Trazê-los à luz cria a possibilidade de se apropriar desse comportamento - quaisquer que sejam os seus antecedentes - e assim ´assumir a responsabilidade´ numa terminologia Gestalt. Tal é libertador. Vermos a nossa própria manipulação dá-nos opções, enquanto que ver somente o comportamento bloqueado/adictivo da outra pessoa nos deixa apenas com a reacção.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Case #52 - As raparigas festivas

Martin tinha tido várias relações importantes na sua vida. Com 50 anos de idade, encontrava-se agora numa relação com boa ligação emocional, mas sem filhos.
Sempre se tinha sentido atraído por ´raparigas festivas´. No fim de contas, apesar de investir muito nas relações, descobriu que não as tinha conseguido fazer perdurar, até a que tinha actualmente.
Agora era feliz... apesar de a sua nova companheira de facto gostar de beber e passar bons momentos de diversão. E embora ele gostasse disso, às vezes achava que era demasiado, e frequentemente queria ir-se embora de um encontro mais cedo que ela.
Assim, de vez em quando dava por si a beber um pouco mais do que queria.
Quanto toca a coisas como álcool e padrões de relação, é bom olhar para o panorama geral. Aquilo  a que chamamos o Campo, em Gestalt. Em constelações familiares lida-se com istoo tempo todo, mas há diversas formas de lidar com esta dimensão. Na terapia individual, há algumas zonas em que existe uma forte indicação ara prestar atenção a um contexto mais alargado.
Perguntei-lhe então pelos seus pais e avós. Os seus pais davam-se muito bem.
Ao que parece a sua avó paterna tinha sido uma mulher bastante aventureira para a sua época. Tinha viajado e casado tarde. Era uma pessoa popular socialmente, mas nem sempre presente como mãe. Assim, a sua experiência de parentalidade vinha mais da parte do pai, que era o elemento estável.
Martin nunca tinha unido estes pontos, mas tornou-se claro para ele esta sua atracção por mulheres com com muita vitalidade mas instáveis.
A tarefa que se punha era então mover-se para o presente. Preparei uma cadeira a representar a ´rapariga festiva´, e pedi-lhe que contactasse com os seus sentimentos. Eram mistos - atracção, mas também dor, por causa do seu historial de relações. Perguntei-lhe sobre o que se activava nele quando se via sentado diante deste tipo de mulher.
Deu-se conta de diversas coisas - a sua excitação, a sua raiva e um sensação de vazio. Pedi-lhe que identificasse em que zona do corpo sentia tudo isto. Ele notou uma sensação de congestão no peito.
Contou-me que era exactamente o que sentia quando a sua companheira começava a beber demasiado - uma espécie de pânico ou medo. Geralmente, nessas alturas ou a censurava, ou não dizia nada, e ficava ressentido.
Pedi-lhe então que se deixasse estar com esse sentimento, e que que lhe dissesse algo a ela, sentada na cadeira.
Foi-lhe muito difícil fazê-lo - sentia-se muito desconfortável, e disse-mo.
Pedi-lhe então que trocasse, se sentasse na cadeira e falasse como se fosse a sua companheira. Nessa posição, sentia-se rebelde, não queria que lhe dissessem o que fazer e disse ´se gostasses de mim, davas-me liberdade, em vez de tentares controlar-me´.
Isto era de alguma forma algo familiar para Martin - tinha-a ouvido dizer coisas parecidas.
Pedi-lhe que se sentasse ao pé de mim noamente, e indaguei a respeito da parte dele que era rebelde. Em Gestalt estamos interessados em polaridades, especialmente aquelas das quais não nos apropriamos e associamos frequentemente com o nosso parceiro.
Não estava habituado a pensar dessa maneira - era sempre a sua companheira quem era a rebelde.
Identificou como no seu emprego aturava o comportamento super controlador do seu chefe e nunca dizia nada.
Sugeri-lhe pois que sentasse o seu chefe na cadeira e lhe dissesse algo rebelde. Ao fazê-lo, sentiu muita liberdade, e saiu-lhe um peso de cima.
Repetimos este processo para diversos cenários da sua vida, e a cada vez, descobriu um enorme alivio em poder dizer algo rebelde - ele era o típico ´bom rapaz´.
Senti-se muito mais forte e empoderado.
Isto foi apenas um passo, numa série de sessões terapêuticas, mas realça a forma na qual o nosso self projectado - numa outra pessoa - estanca a energia que poderia na realidade ser-nos útil para encontrar maior equilíbrio e vitalidade - que são resumidamente os objectivos em Gestalt.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Case #51 - Confrontando um fantasma

Leanne contou-me acerca de andar muito assustada. Tinha medo de baratas, sobressaltava-se facilmente e às vezes à noite custava-lhe dormir, com medo que lhe entrassem ladrões pela janela, ou fantasmas ou ´monstros´. Também tinha medo de monstros quando andava de barco.
Pondo o resto de parte, isto soava como um estado muito infantil, pelo que lhe perguntei sobre o que lhe tinha acontecido em criança para a tornar temerosa.
Relatou-me de imediato um incidente que se passara quando tinha 6 anos. Um rapaz, um dos seus melhores amigos, morrera afogado. Passaram-se horas até ser descoberto. Trouxeram-no para casa dela, e a família do rapaz insistiu que o pai dela, médico, o tentasse reanimar. Não foi bem sucedido.
Nessa noite ocorreu uma tempestade, e ela foi deitar-se muito assustada. Teve então um pesadelo, em que tentava salvá-lo e não conseguia. Pensava muito nele à medida que foi crescendo, e ainda se sentia bastante triste com este tema.
Ora, isto tornou claro quem era o ´fantasma´ de quem ela tinha medo.
Sugeri-lhe uma experiência confrontadora mas necessária - usando o drama do momento, a intensidade do medo e a oportunidade presente para lidar com ele directamente, de uma vez por todas.
Propus-lhe então que eu ficasse de pé ao lado dela, encarando a janela aberta, com o grupo por detrás a dar apoio. Ela convidaria então o fantasma do seu jovem amigo que tinha morrido a entrar na sala, diante dela.
Ela fê-lo, mas a tremer como varas verde. Deixei que se encostasse a mim, segurei-a com firmeza, o grupo bem perto atrás de nós. Instruí-a a que falasse com o ´fantasma´, dizendo-lhe como se sentia, pelo que tinha passado e o quanto tinha sentido a sua falta.
Conseguiu fazê-lo, apesar de ser difícil. Referiu que queria estar com ele, do outro lado.
Perguntei a Leanne como ele respondia a isso, e ela disse-me que ele não o desejava. Isto foi importante para ela assimilar; mesmo assim ainda havia nela um anelo residual pela morte e por querer estar perto dele.
Apoiei-a então a dialogar mais com ele, contado-lhe realmente como se sentia, e escutando verdadeiramente a resposta.
Tive que a apoiar, inicialmente através do seu medo, e depois da sua mágoa. Indiquei-lhe que dirigisse a sua respiração para o seu estômago, e fosse descendo em direcção às pernas.
Em Gestalt trabalhamos com enraizamento e com respiração, para ajudar a pessoa a permanecer presente com a sua experiência e a intensidade da emoção. O que acontece frequentemente é que não havia apoio na altura para o conseguir  fazer, em particular quando se é novo. Assim, estas técnicas ajudam a pessoa a contactar com a experiência que havia sido avassaladora anteriormente, de uma forma que agora possa ser assimilida.
Foi muito difícil para ela manter-se presente - tinha passado os últimos 30 anos a viver com medo, a respirar superficialmente... o que por sua vez reforçava o medo. Foi pois difícil para ela respirar tão profundamente, e precisou de muito apoio e instruções da minha parte.
Após algum tempo ficou muito calma, pôde despedir-se do fantasma e regressou inteiramente a si própria. Sentiu-se presente no seu corpo mais do que alguma vez se lembrava, e todos os vestígios do medo haviam desaparecido.

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