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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Case #53 - Beber demasiado, ou dar demasiado?

Tom bebia, demasiado, demasaidas vezes. Tinha-o feito por muitos anos. Às vezes deixava a bebida, às vezes recomeçava.
Abby não era feliz, e tinha-se tornado cada vez mais peremptória a respeito das coisas terem que mudar. O problema era que não mudavam - ele deixava de beber, voltavam a dar-se bem por uns tempos, e então de algum modo, tudo voltaria a recomeçar.
Abby queria uma boa relação. Queria conexão, comunicação, honestidade. Tinham estado juntos por muito tempo, e ela não queria deitar a relação a perder. Ralhar permanentemente não resultava, mas também não funcionava deixar as coisas seguirem o padrão habitual. Abby estava muito frustrada. Tom não parecia capaz de manter as mudanças que ela realmente necessitava. Ela tinha-se tornado cada vez mais frustrada e desanimada.
Não havia dúvidas, Tom tinha um problema com o álcool. Era claro que ele não tinha realmente controlo sobre a bebida, e era também claro que os seus esforços para parar só resultavam por um período de tempo limitado - por vezes 6 meses, mas depois ele retomava.
Abby parecia estar a fazer udo o que podia. Tornou a sua posição clara. Demarcou limites. Acudiu a terapia em busca de ajuda.
Do ponto de vista da Teoria de Campo, a adicção não é algo ´na´ pessoa, mas algo ´na´família ou relação. É mantida por mais de uma pessoa, apesar de neste caso parecer que Abby estava a fazer tudo o que podia para mudar a situação. A sua participação não era clara para ela - ela parecia não querer nada mais que uma relação livre da adicção.
Abby tinha um pai que era controlador, desanimador  e com frequência maldoso. As suas necessidades de sustento, de ser escutada não foram supridas. De tal modo que ela aprendeu a ser uma rapariga prestativa, numa tentativa de obter algum tipo de reconhecimento.
Isto é aquilo a que chamamos em Gestalt um ´ajuste criativo´. Fez sentido nesse então, mas agora, como adulta, Abby estava descobrir que se sentia cada vez mais bloqueada - o ajuste criativo já não estava a funcionar em seu proveito.
Ela identificou que era isto que a tinha levado a ser enfermeira - tomar conta dos outros e das suas necessidades. E era isto que estava a fazer com Tom.
À medida que fomos explorando este tema, Abby deu-se conta que a sua prestatividade continha em si uma espécie de reciprocidade. Se ela desse aos outros, homens, então ela seria útil, desejada, reconhecida, necessária.
E era exactamente esta a situação com Tom. Ele precisava dela, e ficava muito triste se ela se zangasse e se retirasse. Ela não conseguia vê-lo tão triste, e então voltava a aproximar-se.
O ponto chave foi quando identificámos como a sua prestatividade era também uma espécie de manipulação: ´se eu te aportar algo, então vais precisar de mim, e não me abandonarás´.
O que foi importante foi a mudança de perspectiva - agora Abby era capaz de ver mais claramente não apenas o comprtamento adictivo de Tom, mas também a sua própria manipulação repetitiva - dar para receber, ou como chamamos em Gestalt, ´proflexão´.
Este é um exemplo daquilo a que damos o termo ´fronteira distorcida´ - parece que algo está a ser dado, mas na realidade existe um motivo subjacente, pelo que o aspecto da dádiva é condicional, não incondicional.
Este reconhecimento foi dramático para ela - ela pôde reconhecer não apenas o padrão familiar de Tom com a bebida, mas um outro padrão de mãos dadas com esse - o da sua forma manipuladora de dar.
Em Gestalt trabalhamos com tomada de consciência, mas tal não é apenas limitado ao ´aqui e agora´, também inclui a tomada de consciência do nosso Campo, com todas as suas camadas complexas, e especialmente os nossos padrões de comportamento escondidos.
Trazê-los à luz cria a possibilidade de se apropriar desse comportamento - quaisquer que sejam os seus antecedentes - e assim ´assumir a responsabilidade´ numa terminologia Gestalt. Tal é libertador. Vermos a nossa própria manipulação dá-nos opções, enquanto que ver somente o comportamento bloqueado/adictivo da outra pessoa nos deixa apenas com a reacção.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Case #52 - As raparigas festivas

Martin tinha tido várias relações importantes na sua vida. Com 50 anos de idade, encontrava-se agora numa relação com boa ligação emocional, mas sem filhos.
Sempre se tinha sentido atraído por ´raparigas festivas´. No fim de contas, apesar de investir muito nas relações, descobriu que não as tinha conseguido fazer perdurar, até a que tinha actualmente.
Agora era feliz... apesar de a sua nova companheira de facto gostar de beber e passar bons momentos de diversão. E embora ele gostasse disso, às vezes achava que era demasiado, e frequentemente queria ir-se embora de um encontro mais cedo que ela.
Assim, de vez em quando dava por si a beber um pouco mais do que queria.
Quanto toca a coisas como álcool e padrões de relação, é bom olhar para o panorama geral. Aquilo  a que chamamos o Campo, em Gestalt. Em constelações familiares lida-se com istoo tempo todo, mas há diversas formas de lidar com esta dimensão. Na terapia individual, há algumas zonas em que existe uma forte indicação ara prestar atenção a um contexto mais alargado.
Perguntei-lhe então pelos seus pais e avós. Os seus pais davam-se muito bem.
Ao que parece a sua avó paterna tinha sido uma mulher bastante aventureira para a sua época. Tinha viajado e casado tarde. Era uma pessoa popular socialmente, mas nem sempre presente como mãe. Assim, a sua experiência de parentalidade vinha mais da parte do pai, que era o elemento estável.
Martin nunca tinha unido estes pontos, mas tornou-se claro para ele esta sua atracção por mulheres com com muita vitalidade mas instáveis.
A tarefa que se punha era então mover-se para o presente. Preparei uma cadeira a representar a ´rapariga festiva´, e pedi-lhe que contactasse com os seus sentimentos. Eram mistos - atracção, mas também dor, por causa do seu historial de relações. Perguntei-lhe sobre o que se activava nele quando se via sentado diante deste tipo de mulher.
Deu-se conta de diversas coisas - a sua excitação, a sua raiva e um sensação de vazio. Pedi-lhe que identificasse em que zona do corpo sentia tudo isto. Ele notou uma sensação de congestão no peito.
Contou-me que era exactamente o que sentia quando a sua companheira começava a beber demasiado - uma espécie de pânico ou medo. Geralmente, nessas alturas ou a censurava, ou não dizia nada, e ficava ressentido.
Pedi-lhe então que se deixasse estar com esse sentimento, e que que lhe dissesse algo a ela, sentada na cadeira.
Foi-lhe muito difícil fazê-lo - sentia-se muito desconfortável, e disse-mo.
Pedi-lhe então que trocasse, se sentasse na cadeira e falasse como se fosse a sua companheira. Nessa posição, sentia-se rebelde, não queria que lhe dissessem o que fazer e disse ´se gostasses de mim, davas-me liberdade, em vez de tentares controlar-me´.
Isto era de alguma forma algo familiar para Martin - tinha-a ouvido dizer coisas parecidas.
Pedi-lhe que se sentasse ao pé de mim noamente, e indaguei a respeito da parte dele que era rebelde. Em Gestalt estamos interessados em polaridades, especialmente aquelas das quais não nos apropriamos e associamos frequentemente com o nosso parceiro.
Não estava habituado a pensar dessa maneira - era sempre a sua companheira quem era a rebelde.
Identificou como no seu emprego aturava o comportamento super controlador do seu chefe e nunca dizia nada.
Sugeri-lhe pois que sentasse o seu chefe na cadeira e lhe dissesse algo rebelde. Ao fazê-lo, sentiu muita liberdade, e saiu-lhe um peso de cima.
Repetimos este processo para diversos cenários da sua vida, e a cada vez, descobriu um enorme alivio em poder dizer algo rebelde - ele era o típico ´bom rapaz´.
Senti-se muito mais forte e empoderado.
Isto foi apenas um passo, numa série de sessões terapêuticas, mas realça a forma na qual o nosso self projectado - numa outra pessoa - estanca a energia que poderia na realidade ser-nos útil para encontrar maior equilíbrio e vitalidade - que são resumidamente os objectivos em Gestalt.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Case #51 - Confrontando um fantasma

Leanne contou-me acerca de andar muito assustada. Tinha medo de baratas, sobressaltava-se facilmente e às vezes à noite custava-lhe dormir, com medo que lhe entrassem ladrões pela janela, ou fantasmas ou ´monstros´. Também tinha medo de monstros quando andava de barco.
Pondo o resto de parte, isto soava como um estado muito infantil, pelo que lhe perguntei sobre o que lhe tinha acontecido em criança para a tornar temerosa.
Relatou-me de imediato um incidente que se passara quando tinha 6 anos. Um rapaz, um dos seus melhores amigos, morrera afogado. Passaram-se horas até ser descoberto. Trouxeram-no para casa dela, e a família do rapaz insistiu que o pai dela, médico, o tentasse reanimar. Não foi bem sucedido.
Nessa noite ocorreu uma tempestade, e ela foi deitar-se muito assustada. Teve então um pesadelo, em que tentava salvá-lo e não conseguia. Pensava muito nele à medida que foi crescendo, e ainda se sentia bastante triste com este tema.
Ora, isto tornou claro quem era o ´fantasma´ de quem ela tinha medo.
Sugeri-lhe uma experiência confrontadora mas necessária - usando o drama do momento, a intensidade do medo e a oportunidade presente para lidar com ele directamente, de uma vez por todas.
Propus-lhe então que eu ficasse de pé ao lado dela, encarando a janela aberta, com o grupo por detrás a dar apoio. Ela convidaria então o fantasma do seu jovem amigo que tinha morrido a entrar na sala, diante dela.
Ela fê-lo, mas a tremer como varas verde. Deixei que se encostasse a mim, segurei-a com firmeza, o grupo bem perto atrás de nós. Instruí-a a que falasse com o ´fantasma´, dizendo-lhe como se sentia, pelo que tinha passado e o quanto tinha sentido a sua falta.
Conseguiu fazê-lo, apesar de ser difícil. Referiu que queria estar com ele, do outro lado.
Perguntei a Leanne como ele respondia a isso, e ela disse-me que ele não o desejava. Isto foi importante para ela assimilar; mesmo assim ainda havia nela um anelo residual pela morte e por querer estar perto dele.
Apoiei-a então a dialogar mais com ele, contado-lhe realmente como se sentia, e escutando verdadeiramente a resposta.
Tive que a apoiar, inicialmente através do seu medo, e depois da sua mágoa. Indiquei-lhe que dirigisse a sua respiração para o seu estômago, e fosse descendo em direcção às pernas.
Em Gestalt trabalhamos com enraizamento e com respiração, para ajudar a pessoa a permanecer presente com a sua experiência e a intensidade da emoção. O que acontece frequentemente é que não havia apoio na altura para o conseguir  fazer, em particular quando se é novo. Assim, estas técnicas ajudam a pessoa a contactar com a experiência que havia sido avassaladora anteriormente, de uma forma que agora possa ser assimilida.
Foi muito difícil para ela manter-se presente - tinha passado os últimos 30 anos a viver com medo, a respirar superficialmente... o que por sua vez reforçava o medo. Foi pois difícil para ela respirar tão profundamente, e precisou de muito apoio e instruções da minha parte.
Após algum tempo ficou muito calma, pôde despedir-se do fantasma e regressou inteiramente a si própria. Sentiu-se presente no seu corpo mais do que alguma vez se lembrava, e todos os vestígios do medo haviam desaparecido.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Case #50 - Falando com almofadas: sobre apoio

Mark levantou vários temas, mas nehum parecia ter muita tracção. A sua situação laboral estava em transição - anteriormente tinha trabalhado com o seu pai, mas tinha-se afastado. Tinha várias actividades de negócio, mas nenhuma lhe permitia fazer bom dinheiro. Estava casado há três anos, e estava pronto para ter um bebé. Fiz vários comentários e observações - o som fluente da sua voz, por exemplo.
Nada parecia realmente salientar-se como ´um tema´. Perguntei-lhe então pelo casamento. Contou-me que era bom, e se sentia feliz.
Embora isso seja geralmente um bom indicador, estava interessado naquilo que compunha a sua resposta - o detalhe. Em Gestalt estamos sempre interessados em nos desviarmos das generalizações para o particular, uma vez que este é o modo através do qual se obtém contacto.
Foi-lhe difícil responder. Perguntei-lhe pelos seus sentimentos, e era também difícil para ele ser específico.
Achei então que a falta de uma figura clara estava relacionada com sua a dificuldade em estar em sintonia com os seus sentimentos.
Sugeri-lhe uma experiência - andar em redor e olhar para as pessoas do grupo, uma por uma e dar-se conta de como se sentia olhando para cada uma delas.
Começou a contar-me a respeito da sua experiência, em termos muito claros. Era óbvio então que ele tinha a capacidade de identificar a sua experiência em relação, mas provavelmente apenas precisava de encorajamento e um ambiente de apoio - algo que ele confirmou.
Dei-lhe então um modelo específico no qual falar: ´Quando olho para ti sinto-me ______´.
Isto soa muito simples, mas é importante começar num ponto que seja realizável, e dada a sua dificuldade declarada em identificar os seus sentimentos, tal parecia um bom começo. O que eu fiz é dar um passo da sua descrição da experiência de outros, em direcção a poder oferecer-lhes a sua experiência directamente. Em Gestalt, movemo-nos sempre numa direcção relacional.
Ele fê-lo então com várias pessoas, articulando de uma forma muita clara a cada vez.
Novamente, isto indicava que ele apenas precisava de um ambiente de apoio no qual poder fazê-lo.
De seguida, peguei uma almofada, representando a sua mulher, e convidei-o a falar com ela, de um modo similar: ´Quando vejo _____ em ti, sinto-me _____´.
Fê-lo durante algum tempo, articulando de uma forma clara. Reconheci o seu trabalho, encorajei-o e observei que ele tinha certamente a capacidade de identificar os seus sentimentos e comunicá-los.
Achei que talvez precisasse apenas de um bom treino, num ambiente que não fosse ameaçador. Ele concordou.
Como continuação convidei-o a fazer a mesma coisa com o seu pai.
Fiz-lhe notar que o apoio parecia ser um ponto chave, e convidei-o novamente a ´falar com as almofadas´ - primeiro com a sua mulher, depois com o seu pai - dizendo-lhes: ´Quando tu fazes _____, eu sinto-me _____, e gostaria de um apoio _____ da tua parte`.
Tal foi muito valioso para ele, clarificando muitos detalhes do conteúdo, e ele referiu sentir-se muito seguro no final.
Isto foi um bom exemplo de uma experiência orientada de um modo muito comportamental, a qual incorporava sentimentos, contacto, autenticidade e apoio. Estes são os principais elementos com que trabalhamos em Gestalt, e uma sessão como esta pode ser muito valiosa enquanto algo que quase se assemelha a um processo de coaching.
Sempre que for apropriado, este aspecto pode também ser incorporado numa abordagem Gestalt. O principal a reter é que não se trata de uma fórmula, e que é aplicado a uma pessoa em particular, com o tipo de processo que ela precisar, nesse momento em concreto.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Case #49 - A boneca rígida e as mãos suaves

Annabelle estava angustiada, muito triste. Tinha trazido uma pequena boneca com ela, com uns bracinhos rígidos de madeira.
´Esta sou eu´, disse. ´Os meus braços são rígidos, como um Zombie. O meu coração está triste´.
Revelou-me que os seus pais discutiam terrivelmente enquanto ela foi crescendo, e que isso tinha criado muito medo e insensibilidade nela. Já na sua vida adulta sentia-se demasiado dura, e queria encontrar mais suavidade. Mas a boneca mostrava o quão hirta ela se sentia.
Escutei-a profundamente, e sentia o meu coração bem aberto - ela estava realmente muito triste.
Ao mesmo tempo, tive um pensamente brincalhão, que parecia quase irreverente - de um zombie a andar às voltas, naquela imagem estúpida e divertida que se costuma ter dos zombies.
Partilhei pois com ela tanto a minha conexão e cuidado profundo por ela como este pensamento doido e brincalhão a respeito dos zombies. Não lhe queria faltar ao respeito, mas também quis incluir esta minha outra faceta.
Mostrou-se aberta a ouvir-me. Sugeri-lhe que talvez pudéssemos até brincar com isto.
Então pusémo-nos de pé, lado a lado e andámos feitos zombies - em direcção às pessoas do grupo. A maior parte ria-se, gozando aquela maluquice divertida. Algumas pessoas chegaram a assustar-se, e dirigimo-nos para elas. No geral foi sobretudo uma experiência palerma e engraçada.
Annabelle sentou-se, e eu sentei-me de frente para ela, atento a como estava.
A experiência tinha-a amenizado, aberto-a ainda mais. Estava sentada com a sua boneca, sentindo os seus bracinhos, a falar de como eram rígidos... mas agora, se ela os esfregasse, talvez pudessem ficar mais suaves.
Encarei isso como uma pista, segurei-lhe em ambos os braços com as minhas mãos e esfreguei-os suavemente. Ela agarrou-se aos meus braços com as suas mãos, como uma criança pequena em busca de comforto. Olhei-a para aferir como seria isto para ela, e pude vê-la a relaxar. Continuei a esfregar os seus braços, falando-lhe de suavidade. Podia sentir a intensidade da energia nas suas mãos. Assim, quando me disse que sentia os braços a relaxarem, coloquei as minhas mãos no meu colo, de palmas voltadas para cima, e deixei que ela esfregasse as suas mãos nas minhas, coisa que ela fez, para trás e para a frente, lentamente. Salientei quanta energia havia nas suas mãos. Ela estava profundamente conectada com o seu coração, os seus sentimentos e manteve-se em contacto comigo durante este processo.
Falou de como cada uma das minhas mãos era um dos seus progenitores, separados, mas ambos presentes. Tocou em cada mão de um modo amoroso e triste. Pegou então na boneca e pôs a sua cara em cada um dos meus dedos. De seguida segurou em ambos os braços da boneca, colocou um ligado a uma das minhas mãos e o outro  à minha outra mão.
Disse, ´Ainda que os meus pais estejam separados, posso conectar-me com cada um deles.´
O momento foi solene, a sua tristeza colapsou e mudou de uma qualidade estagnada para uma abertura de coração, um fluir. Os seus braços estavam relaxados, e cada parte sua respirava, estava presente e conectada.
Foi uma experiência marcante para ela, bem como para mim, após a a qual ela sentiu uma sensação profunda de paz e integração.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Case #48 - A bruxa, o dinheiro e a doença

Song-li tinha tido problemas graves de saúde ao longo do último ano. Depois de várias operações, nada do ponto de vista físico tinha ajudado muito, e as coisas tinham melhorado temporariamente, para depois piorar. O aspecto psicológico era pois a próxima explicação. Ela tinha experimentado vários tipos de abordagem terapêutica em relação a este assunto... pelo que eu estava atento a não as repetir , e lhe perguntei directamente sobre que temas já se tinha debruçado. Não é bom sobrecarregar demasiadas abordagens diferentes no mesmo problema, e isso requer uma decisão profissional cautelosa.
Se formos ao médico, talvez seja bom obter uma segunda opinião, mas provavelmente não 4 ou 5 - isso seria apenas confuso. Fazer um trabalho continuado no mesmo tema, com o mesmo terapeuta, pode levar a um aprofundamento, mas ´andar à pesca´pode ser contra produtivo. Posto isto, eu não quis automaticamente mergulhar directamente no assunto.
Indaguei pelo contexto - o que lhe tinha acontecido há um ano quando começou a experienciar pela primeira vez os problemas de saúde. Contou-me que andava a comprar notas (de dinheiro falso) usadas na China para se queimar, geralmente como oferendas a alguém. O seu pai tinha morrido 5 anos antes, e ela andava às compras com esse intuito.
Quando ela estava no acto da compra uma ´bruxa´ (palavras dela) tinha-a avisado para não comprar demasiado ou iria ficar doente. Ela tentou imediatamente devolver a compra, mas a loja não aceitou a devolução.
Pouco depois, a doença ocorreu.
Perguntei-lhe pela relação com o seu pai. Tinha sido próxima, sustentadora e ela pensava nele diariamente, associando-o frequentemente com elementos da sua vida, tal como o seu filho.
Descobrir as circunstâncias do campo pessoal de uma pessoa pode ser importante, ao invés de ir directamente aos temas emocionais. O contexto fornece informação importante que pode ajudar a orientar a direcção da terapia.
Indaguei então acerca da frequência dos pensamentos - após 5 anos, parecia-me ser um grande foco, indicador de algum tipo de assunto não concluído.
Ela não conseguiu propriamente responder do que se tratava, ou sequer como se sentia quando pensava no seu pai, apesar de aparentar ser positivo.
Em sessões futuras talvez pudesse entrar mais fundo na sua tomada de consciência, mas dada a clara ausência de acesso, não quis tentar sondar, e sim ficar com o que ela me apresentava. Esta é uma das formas nas quais não tratamos de romper ´resistências´ em Gestalt.
Deixei-me estar por algum tempo, absorvendo aquilo que ela tinha dito.
Queria utilizar as estruturas que ela já tinha disponibilizado - o dinheiro, a bruxa e a sua (quase) obsessão em pensar no pai.
Propus-lhe então algum trabalho de casa - uma experiência Gestalt alargada.
Sugeri-lhe que comprasse apenas uma nota desse papel moeda. Averiguei junto dela e ela tinha uma fotografia do pai guardada no computador. Disse-lhe então que todos os dias, à mesma hora, ela usasse uma tesoura para cortar um pedacinho da nota, o colocasse num queimador, ligasse o computador com a fotografia do pai, lhe pedisse que abençoasse a sua vida, e depois fechasse a fotografia.
Isto é aquilo que nas terapias breves é conhecido como ´prescrever o sintoma´, e encontra o seu paralelo em Gestalt na ´Teoria Paradoxal da Mudança´. Estar presente exactamente com aquilo que existe.
Ela queria mais - claramente uma extensão da sua busca agitada por mais terapia neste tópico, bem como um isomorfismo daquilo sobre o qual a bruxa a tinha avisado - i.e., não ser gananciosa em querer demasiadas ´coisas´ de valor - tal como representado pelo dinheiro.
Fosse como fosse, eu notara a sua agitação, e levá-lo-ia em consideração para um trabalho posterior noutra ocasião.
Ela estava de baixa médica, e perguntei-lhe como ocupava os seus dias. Ela estava por casa e basicamente dispunha de 8 horas nas quais cozinhava, descansava e saía para passear.
Perguntei-lhe se tinha alguma questão social que lhe importasse, ao qual me respondeu pela negativa.
Sugeri-lhe então que encontrasse um projecto de serviço que gostasse de começar e o consagrasse em nome do seu pai.
Tal muda o seu simbolismo, como um trampolim para a vida e o compromisso, em vez de permanecer na doença, morte e não dedicação. Também lhe forneceu algo positivo para se focar durante o dia - algo ´pelo que viver´.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Case #47 - O fim de uma relação é um novo começo

Este casal já se debatia há algum tempo.
A primeira coisa que Rhonda  disse na sessão foi - ´Os meus pais divorciaram-se, e eu prometi a mim mesma que nunca faria isso a uma família que eu tiviesse criado´. Estava extremamente angustiada. Brian pôs o braço em seu redor, mas ela afastou-se.
Pedi-lhe que se deslocasse para o lado oposto ao dela, de modo a que se pudessem ver um ao outro.
A segunda coisa que ela disse foi, ´Já chega, não consigo continuar com isto. Esta relação acabou para mim.´
Brian estava chocado. Disse-lhe que a tinha ouvido dizer isso muitas vezes anteriormente, e que tinha tratado arduamente de fazer mudanças nos meses anteriores. Começou a explicar-se... eu detive-o. Explicar é visto como uma forma de evitar ´o que existe, o que é, o que está´, na perspectiva Gestalt.
Pedi-lhe que lhe dissesse simplesmente o que sentia. Depois de bastante apoio, ele disse-lhe que se sentia abandonado e em pânico, e começou a chorar.
Ela deixou-se estar sentada por algum tempo sem dizer nada. Quando eu a incitei, disse que estava em branco; emocionalmente era demasiado, e encontrava-se fora da sua capacidade de tomar consciência. Em Gestalt, não insistimos com alguém quando surge este ponto.
Trabalhei então com ele - explicando-lhe que ela não estava disponível, pelo que não valia a pena continuar a insistir; deixei-me estar com ele e os seus sentimentos, e ajudei-o a estar consigo mesmo nesse lugar. Reconheci como ele se sentia, quão terrível era para ele estar nesta situação e como era duro que ela tivesse ´fechado a porta´ e não estivesse disponível de todo para ele neste momento de angústia e necessidade.
Foi então que Rhonda olhou para ele, com lágrimas nos olhos. Disse-lhe - ´Isto aconteceu com a tua mãe e a tua ex-mulher, eu nunca quis fazer-te o mesmo´.
Ele foi-se abaixo e retirou-se. Encoragei-o a estar presente, que visse que ela agora estava a chorar, que se encontrava disponível, e que reconhecesse a conexão nesse momento. Foi muito difícil para ele.
Ele disse-lhe que se sentia culpado, que sentia que tinha falhado e começou a falar de como queria continuar a tentar. Mas eu parei-o, pois não havia da parte dela espaço emocional para qualquer tipo de conversa em relação ao futuro.
Perguntei então se ela podia assimilar aquilo que ele tinha dito. Ela estava sem expressão - então sugeri que ela dissesse que não tinha espaço para assimilar isso - esta era afirmação emocionalmente verdadeira da parte dela.
Tal foi muito duro para ele ouvir. Apoiei-o em poder devolver-lhe isso. A sua resposta foi notar a zanga, ressentimento e tristeza que ela via nos seus olhos. Então pedi ao Brian que nomeasse de que é que essas emoções se tratavam para ele.
Ela ouviu, mas a dada altura disse, ´Não quero continuar, sinto-me péssima pois sei o difícil que isto é para ti.´
Brian fechou-se, retirou-se do contacto e eu podia ver que não estava disponível. Sugeri-lhe que lhe dissesse que não era capaz de a ouvir nesse momento, mas até isso foi duro para ele.
Pedi-lhe então a ela que falasse comigo. Esta é uma técnica em terapia de casal - dar apoio a uma pessoa, se a outra não está disponível, para aliviar a pressão e assim o outro pode ser apenas testemunha.
Rhonda disse que queria dar-lhe muito tempo para aceitar esta situação, e eu disse-lhe que achava que ele provavelmente nunca a aceitaria. Ele amava-a, e não era provável que desistisse. Isso foi um pouco surpreendente para ela.
Levei-a então a revelar mais dos seus sentimentos e afirmações pessoais.
Foi então que Brian voltou a estar disponível, e ela disse-lhe que se sentia muito culpada e que lamentava muito. Choraram juntos. Ele queria aproximar-se, mas ela disse - ´Não, por favor mantém a distância´.
Indaguei sobre isso, e ela respondeu que já não o amava. Desafiei esta afirmação - é baseada numa ideia falaciosa do amor como puramente um sentimento. Em vez disso pedi-lhe que pudesse transformar a frase numa afirmação pessoal. Disse então, ´Eu desliguei os meus sentimentos´.
Esta foi uma afirmação chave, uma vez que assim passa a ser a respeito de acção, escolha e volição.
Mas este não era o momento para trabalhar com isso - o simples reconhecimento de tal seria então uma entrada para futuras possibilidades de escolha.
Pedi-lhe a ele que reconhecesse o que tinha ouvido, e que lhe falasse dos seus sentimentos. Conseguiu fazê-lo, e ambos choraram.
No entanto, algo tinha mudado. No meio do impossível - e quem sabe, do futuro - eles tinham conseguido ter algum contacto profundo e autêntico. Ambos tinham chegado a um lugar para lá das suas capacidades, mas com o meu apoio àquele que ainda se mantinha a bordo nessa altura conseguiram continuar e estar juntos nesse lugar de perda e desespero.
O desfecho derradeiro era desconhecido. Mas o foco em Gestalt é alcançar este contacto profundo e autêntico; isso torna-se o alicerce de uma relação verdadeira - aquilo que claramente faltava até então.

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