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I teach and practice Gestalt therapy, Career decision coaching, and Family Constellations work. As well as Australia, I teach workshops and training in China, Japan, Korea, the USA & Mexico. I am author of Understanding The Woman In Your Life, a book of advice for men about relationships with women. In my work as director of Lifeworks I provide therapy,  training and supervision. I am a Phd candidate, studying the interpersonal dynamics of power, and am currently director of an MA in Spiritual Psychology for Ryokan College, an accredited online institution based in LA.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Case #50 - Falando com almofadas: sobre apoio

Mark levantou vários temas, mas nehum parecia ter muita tracção. A sua situação laboral estava em transição - anteriormente tinha trabalhado com o seu pai, mas tinha-se afastado. Tinha várias actividades de negócio, mas nenhuma lhe permitia fazer bom dinheiro. Estava casado há três anos, e estava pronto para ter um bebé. Fiz vários comentários e observações - o som fluente da sua voz, por exemplo.
Nada parecia realmente salientar-se como ´um tema´. Perguntei-lhe então pelo casamento. Contou-me que era bom, e se sentia feliz.
Embora isso seja geralmente um bom indicador, estava interessado naquilo que compunha a sua resposta - o detalhe. Em Gestalt estamos sempre interessados em nos desviarmos das generalizações para o particular, uma vez que este é o modo através do qual se obtém contacto.
Foi-lhe difícil responder. Perguntei-lhe pelos seus sentimentos, e era também difícil para ele ser específico.
Achei então que a falta de uma figura clara estava relacionada com sua a dificuldade em estar em sintonia com os seus sentimentos.
Sugeri-lhe uma experiência - andar em redor e olhar para as pessoas do grupo, uma por uma e dar-se conta de como se sentia olhando para cada uma delas.
Começou a contar-me a respeito da sua experiência, em termos muito claros. Era óbvio então que ele tinha a capacidade de identificar a sua experiência em relação, mas provavelmente apenas precisava de encorajamento e um ambiente de apoio - algo que ele confirmou.
Dei-lhe então um modelo específico no qual falar: ´Quando olho para ti sinto-me ______´.
Isto soa muito simples, mas é importante começar num ponto que seja realizável, e dada a sua dificuldade declarada em identificar os seus sentimentos, tal parecia um bom começo. O que eu fiz é dar um passo da sua descrição da experiência de outros, em direcção a poder oferecer-lhes a sua experiência directamente. Em Gestalt, movemo-nos sempre numa direcção relacional.
Ele fê-lo então com várias pessoas, articulando de uma forma muita clara a cada vez.
Novamente, isto indicava que ele apenas precisava de um ambiente de apoio no qual poder fazê-lo.
De seguida, peguei uma almofada, representando a sua mulher, e convidei-o a falar com ela, de um modo similar: ´Quando vejo _____ em ti, sinto-me _____´.
Fê-lo durante algum tempo, articulando de uma forma clara. Reconheci o seu trabalho, encorajei-o e observei que ele tinha certamente a capacidade de identificar os seus sentimentos e comunicá-los.
Achei que talvez precisasse apenas de um bom treino, num ambiente que não fosse ameaçador. Ele concordou.
Como continuação convidei-o a fazer a mesma coisa com o seu pai.
Fiz-lhe notar que o apoio parecia ser um ponto chave, e convidei-o novamente a ´falar com as almofadas´ - primeiro com a sua mulher, depois com o seu pai - dizendo-lhes: ´Quando tu fazes _____, eu sinto-me _____, e gostaria de um apoio _____ da tua parte`.
Tal foi muito valioso para ele, clarificando muitos detalhes do conteúdo, e ele referiu sentir-se muito seguro no final.
Isto foi um bom exemplo de uma experiência orientada de um modo muito comportamental, a qual incorporava sentimentos, contacto, autenticidade e apoio. Estes são os principais elementos com que trabalhamos em Gestalt, e uma sessão como esta pode ser muito valiosa enquanto algo que quase se assemelha a um processo de coaching.
Sempre que for apropriado, este aspecto pode também ser incorporado numa abordagem Gestalt. O principal a reter é que não se trata de uma fórmula, e que é aplicado a uma pessoa em particular, com o tipo de processo que ela precisar, nesse momento em concreto.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Case #49 - A boneca rígida e as mãos suaves

Annabelle estava angustiada, muito triste. Tinha trazido uma pequena boneca com ela, com uns bracinhos rígidos de madeira.
´Esta sou eu´, disse. ´Os meus braços são rígidos, como um Zombie. O meu coração está triste´.
Revelou-me que os seus pais discutiam terrivelmente enquanto ela foi crescendo, e que isso tinha criado muito medo e insensibilidade nela. Já na sua vida adulta sentia-se demasiado dura, e queria encontrar mais suavidade. Mas a boneca mostrava o quão hirta ela se sentia.
Escutei-a profundamente, e sentia o meu coração bem aberto - ela estava realmente muito triste.
Ao mesmo tempo, tive um pensamente brincalhão, que parecia quase irreverente - de um zombie a andar às voltas, naquela imagem estúpida e divertida que se costuma ter dos zombies.
Partilhei pois com ela tanto a minha conexão e cuidado profundo por ela como este pensamento doido e brincalhão a respeito dos zombies. Não lhe queria faltar ao respeito, mas também quis incluir esta minha outra faceta.
Mostrou-se aberta a ouvir-me. Sugeri-lhe que talvez pudéssemos até brincar com isto.
Então pusémo-nos de pé, lado a lado e andámos feitos zombies - em direcção às pessoas do grupo. A maior parte ria-se, gozando aquela maluquice divertida. Algumas pessoas chegaram a assustar-se, e dirigimo-nos para elas. No geral foi sobretudo uma experiência palerma e engraçada.
Annabelle sentou-se, e eu sentei-me de frente para ela, atento a como estava.
A experiência tinha-a amenizado, aberto-a ainda mais. Estava sentada com a sua boneca, sentindo os seus bracinhos, a falar de como eram rígidos... mas agora, se ela os esfregasse, talvez pudessem ficar mais suaves.
Encarei isso como uma pista, segurei-lhe em ambos os braços com as minhas mãos e esfreguei-os suavemente. Ela agarrou-se aos meus braços com as suas mãos, como uma criança pequena em busca de comforto. Olhei-a para aferir como seria isto para ela, e pude vê-la a relaxar. Continuei a esfregar os seus braços, falando-lhe de suavidade. Podia sentir a intensidade da energia nas suas mãos. Assim, quando me disse que sentia os braços a relaxarem, coloquei as minhas mãos no meu colo, de palmas voltadas para cima, e deixei que ela esfregasse as suas mãos nas minhas, coisa que ela fez, para trás e para a frente, lentamente. Salientei quanta energia havia nas suas mãos. Ela estava profundamente conectada com o seu coração, os seus sentimentos e manteve-se em contacto comigo durante este processo.
Falou de como cada uma das minhas mãos era um dos seus progenitores, separados, mas ambos presentes. Tocou em cada mão de um modo amoroso e triste. Pegou então na boneca e pôs a sua cara em cada um dos meus dedos. De seguida segurou em ambos os braços da boneca, colocou um ligado a uma das minhas mãos e o outro  à minha outra mão.
Disse, ´Ainda que os meus pais estejam separados, posso conectar-me com cada um deles.´
O momento foi solene, a sua tristeza colapsou e mudou de uma qualidade estagnada para uma abertura de coração, um fluir. Os seus braços estavam relaxados, e cada parte sua respirava, estava presente e conectada.
Foi uma experiência marcante para ela, bem como para mim, após a a qual ela sentiu uma sensação profunda de paz e integração.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Case #48 - A bruxa, o dinheiro e a doença

Song-li tinha tido problemas graves de saúde ao longo do último ano. Depois de várias operações, nada do ponto de vista físico tinha ajudado muito, e as coisas tinham melhorado temporariamente, para depois piorar. O aspecto psicológico era pois a próxima explicação. Ela tinha experimentado vários tipos de abordagem terapêutica em relação a este assunto... pelo que eu estava atento a não as repetir , e lhe perguntei directamente sobre que temas já se tinha debruçado. Não é bom sobrecarregar demasiadas abordagens diferentes no mesmo problema, e isso requer uma decisão profissional cautelosa.
Se formos ao médico, talvez seja bom obter uma segunda opinião, mas provavelmente não 4 ou 5 - isso seria apenas confuso. Fazer um trabalho continuado no mesmo tema, com o mesmo terapeuta, pode levar a um aprofundamento, mas ´andar à pesca´pode ser contra produtivo. Posto isto, eu não quis automaticamente mergulhar directamente no assunto.
Indaguei pelo contexto - o que lhe tinha acontecido há um ano quando começou a experienciar pela primeira vez os problemas de saúde. Contou-me que andava a comprar notas (de dinheiro falso) usadas na China para se queimar, geralmente como oferendas a alguém. O seu pai tinha morrido 5 anos antes, e ela andava às compras com esse intuito.
Quando ela estava no acto da compra uma ´bruxa´ (palavras dela) tinha-a avisado para não comprar demasiado ou iria ficar doente. Ela tentou imediatamente devolver a compra, mas a loja não aceitou a devolução.
Pouco depois, a doença ocorreu.
Perguntei-lhe pela relação com o seu pai. Tinha sido próxima, sustentadora e ela pensava nele diariamente, associando-o frequentemente com elementos da sua vida, tal como o seu filho.
Descobrir as circunstâncias do campo pessoal de uma pessoa pode ser importante, ao invés de ir directamente aos temas emocionais. O contexto fornece informação importante que pode ajudar a orientar a direcção da terapia.
Indaguei então acerca da frequência dos pensamentos - após 5 anos, parecia-me ser um grande foco, indicador de algum tipo de assunto não concluído.
Ela não conseguiu propriamente responder do que se tratava, ou sequer como se sentia quando pensava no seu pai, apesar de aparentar ser positivo.
Em sessões futuras talvez pudesse entrar mais fundo na sua tomada de consciência, mas dada a clara ausência de acesso, não quis tentar sondar, e sim ficar com o que ela me apresentava. Esta é uma das formas nas quais não tratamos de romper ´resistências´ em Gestalt.
Deixei-me estar por algum tempo, absorvendo aquilo que ela tinha dito.
Queria utilizar as estruturas que ela já tinha disponibilizado - o dinheiro, a bruxa e a sua (quase) obsessão em pensar no pai.
Propus-lhe então algum trabalho de casa - uma experiência Gestalt alargada.
Sugeri-lhe que comprasse apenas uma nota desse papel moeda. Averiguei junto dela e ela tinha uma fotografia do pai guardada no computador. Disse-lhe então que todos os dias, à mesma hora, ela usasse uma tesoura para cortar um pedacinho da nota, o colocasse num queimador, ligasse o computador com a fotografia do pai, lhe pedisse que abençoasse a sua vida, e depois fechasse a fotografia.
Isto é aquilo que nas terapias breves é conhecido como ´prescrever o sintoma´, e encontra o seu paralelo em Gestalt na ´Teoria Paradoxal da Mudança´. Estar presente exactamente com aquilo que existe.
Ela queria mais - claramente uma extensão da sua busca agitada por mais terapia neste tópico, bem como um isomorfismo daquilo sobre o qual a bruxa a tinha avisado - i.e., não ser gananciosa em querer demasiadas ´coisas´ de valor - tal como representado pelo dinheiro.
Fosse como fosse, eu notara a sua agitação, e levá-lo-ia em consideração para um trabalho posterior noutra ocasião.
Ela estava de baixa médica, e perguntei-lhe como ocupava os seus dias. Ela estava por casa e basicamente dispunha de 8 horas nas quais cozinhava, descansava e saía para passear.
Perguntei-lhe se tinha alguma questão social que lhe importasse, ao qual me respondeu pela negativa.
Sugeri-lhe então que encontrasse um projecto de serviço que gostasse de começar e o consagrasse em nome do seu pai.
Tal muda o seu simbolismo, como um trampolim para a vida e o compromisso, em vez de permanecer na doença, morte e não dedicação. Também lhe forneceu algo positivo para se focar durante o dia - algo ´pelo que viver´.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Case #47 - O fim de uma relação é um novo começo

Este casal já se debatia há algum tempo.
A primeira coisa que Rhonda  disse na sessão foi - ´Os meus pais divorciaram-se, e eu prometi a mim mesma que nunca faria isso a uma família que eu tiviesse criado´. Estava extremamente angustiada. Brian pôs o braço em seu redor, mas ela afastou-se.
Pedi-lhe que se deslocasse para o lado oposto ao dela, de modo a que se pudessem ver um ao outro.
A segunda coisa que ela disse foi, ´Já chega, não consigo continuar com isto. Esta relação acabou para mim.´
Brian estava chocado. Disse-lhe que a tinha ouvido dizer isso muitas vezes anteriormente, e que tinha tratado arduamente de fazer mudanças nos meses anteriores. Começou a explicar-se... eu detive-o. Explicar é visto como uma forma de evitar ´o que existe, o que é, o que está´, na perspectiva Gestalt.
Pedi-lhe que lhe dissesse simplesmente o que sentia. Depois de bastante apoio, ele disse-lhe que se sentia abandonado e em pânico, e começou a chorar.
Ela deixou-se estar sentada por algum tempo sem dizer nada. Quando eu a incitei, disse que estava em branco; emocionalmente era demasiado, e encontrava-se fora da sua capacidade de tomar consciência. Em Gestalt, não insistimos com alguém quando surge este ponto.
Trabalhei então com ele - explicando-lhe que ela não estava disponível, pelo que não valia a pena continuar a insistir; deixei-me estar com ele e os seus sentimentos, e ajudei-o a estar consigo mesmo nesse lugar. Reconheci como ele se sentia, quão terrível era para ele estar nesta situação e como era duro que ela tivesse ´fechado a porta´ e não estivesse disponível de todo para ele neste momento de angústia e necessidade.
Foi então que Rhonda olhou para ele, com lágrimas nos olhos. Disse-lhe - ´Isto aconteceu com a tua mãe e a tua ex-mulher, eu nunca quis fazer-te o mesmo´.
Ele foi-se abaixo e retirou-se. Encoragei-o a estar presente, que visse que ela agora estava a chorar, que se encontrava disponível, e que reconhecesse a conexão nesse momento. Foi muito difícil para ele.
Ele disse-lhe que se sentia culpado, que sentia que tinha falhado e começou a falar de como queria continuar a tentar. Mas eu parei-o, pois não havia da parte dela espaço emocional para qualquer tipo de conversa em relação ao futuro.
Perguntei então se ela podia assimilar aquilo que ele tinha dito. Ela estava sem expressão - então sugeri que ela dissesse que não tinha espaço para assimilar isso - esta era afirmação emocionalmente verdadeira da parte dela.
Tal foi muito duro para ele ouvir. Apoiei-o em poder devolver-lhe isso. A sua resposta foi notar a zanga, ressentimento e tristeza que ela via nos seus olhos. Então pedi ao Brian que nomeasse de que é que essas emoções se tratavam para ele.
Ela ouviu, mas a dada altura disse, ´Não quero continuar, sinto-me péssima pois sei o difícil que isto é para ti.´
Brian fechou-se, retirou-se do contacto e eu podia ver que não estava disponível. Sugeri-lhe que lhe dissesse que não era capaz de a ouvir nesse momento, mas até isso foi duro para ele.
Pedi-lhe então a ela que falasse comigo. Esta é uma técnica em terapia de casal - dar apoio a uma pessoa, se a outra não está disponível, para aliviar a pressão e assim o outro pode ser apenas testemunha.
Rhonda disse que queria dar-lhe muito tempo para aceitar esta situação, e eu disse-lhe que achava que ele provavelmente nunca a aceitaria. Ele amava-a, e não era provável que desistisse. Isso foi um pouco surpreendente para ela.
Levei-a então a revelar mais dos seus sentimentos e afirmações pessoais.
Foi então que Brian voltou a estar disponível, e ela disse-lhe que se sentia muito culpada e que lamentava muito. Choraram juntos. Ele queria aproximar-se, mas ela disse - ´Não, por favor mantém a distância´.
Indaguei sobre isso, e ela respondeu que já não o amava. Desafiei esta afirmação - é baseada numa ideia falaciosa do amor como puramente um sentimento. Em vez disso pedi-lhe que pudesse transformar a frase numa afirmação pessoal. Disse então, ´Eu desliguei os meus sentimentos´.
Esta foi uma afirmação chave, uma vez que assim passa a ser a respeito de acção, escolha e volição.
Mas este não era o momento para trabalhar com isso - o simples reconhecimento de tal seria então uma entrada para futuras possibilidades de escolha.
Pedi-lhe a ele que reconhecesse o que tinha ouvido, e que lhe falasse dos seus sentimentos. Conseguiu fazê-lo, e ambos choraram.
No entanto, algo tinha mudado. No meio do impossível - e quem sabe, do futuro - eles tinham conseguido ter algum contacto profundo e autêntico. Ambos tinham chegado a um lugar para lá das suas capacidades, mas com o meu apoio àquele que ainda se mantinha a bordo nessa altura conseguiram continuar e estar juntos nesse lugar de perda e desespero.
O desfecho derradeiro era desconhecido. Mas o foco em Gestalt é alcançar este contacto profundo e autêntico; isso torna-se o alicerce de uma relação verdadeira - aquilo que claramente faltava até então.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Case #46 - Larvas

Felicity falava acerca de ter pesadelos. Não aplicamos interpretações pré-estabelecidas aos sonhos em Gestalt, mas os pesadelos têm frequentemente a ver com agressão; entendemos que todos os aspectos do sonho são acerca do sonhador, pelo que os pesadelos estão relacionados com a própria agressividade de quem os sonha.
O sonho recorrente de Felicity, que ocorria de diferentes formas, era deste género:
Ela estava na cave, a cultivar larvas, centenas de milhares delas.
Depois, na cena seguinte, ela estava a vomitar larvas - todo o seu corpo estava cheia delas. Ela conseguia vomitá-las todas, excepto uma.
Enfim, só de olhar para o sonho, poderiamos ter um dia em cheio só com as interpretações. Ao nível mais básico, a cave é que o jaz embaixo, e as larvas referem-se evidentemente a algo bastante apodrecido na pessoa.
MAS, em Gestalt não vamos sequer tão longe.
Permanecemos apenas com o que existe, a experiência da pessoa, e o seu próprio significado à medida que se forma experiencialmente.
Convidei então Felicity a dar voz aos diversos personagens. Como larva, falou acerca de ser gorda, preguiçosa e impotente.
A larva solitária que tinha ficado dentro dela também falou acerca de querer sair.
O passo seguinte a fazer era representar. Juntei-me então a ela, e fizémos de conta que éramos larvas, andando às voltas.
Falei acerca do facto de todos termos algumas larvas dentro de nós - as coisas que simplesmente não queremos revelar aos outros.
Contei-lhe algumas das minhas - a minha sordidez nalgumas circunstâncias, e dei-lhe alguns exemplos.
Ao expôr temas muito difíceis, é importante que o terapeuta tome a iniciativa em dar o exemplo.
Ao início ela estava relutante em identificar algo do género nela própria. Reparei na expressão da sua face - uma espécie de menina inocente a fazer beicinho. Salientei aquilo que via, e representei-o de forma a espelhá-lo de volta a ela.
Comentei - ´Bem, esse não é o aspecto de alguém que tem larvas dentro de si!`
Isto confrontou-a com a persona que ela projecta, e trouxe-lhe uma vontade de querer ser mais autêntica.
Ela nomeou alguns aspectos dela que eram tipo larva, e eu reconheci quão difícil isso era para ela. Ela fez novamente a mesma expressão. Desta vez fiz-lhe notar imediatamente a incongruência, como se ela estivesse a tentar minimizar aquilo que tinha acabado de partilhar.
Tal elevou a sua tomada deconsciência de uma forma muito imediata acerca do seu processo de não-apropriação. A tomada de consciência em Gestalt tem sempre a ver com a imediatez - que leva a um conhecimento de quem sou eu, agora mesmo.
Convidei depois o grupo a partilhar os seus próprios ´self tipo larva´. Tal reduziu ainda mais a vergonha da exposição de Felicity, e criou um vínculo no grupo, partilhando os nossos ´selves` mais profundos e secretos, ao mesmo tempo que nos divertíamos no processo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Case #68 - As verdades muito dolorosas

Mandy e Brian recorreram a Counselling para casais. Encontravam-se em crise. Após um casamento de 15 anos, e com dois filhos, Brian tinha um caso amoroso (o quarto no casamento) e Mandy, com 40 anos, estava desesperada por salvar o matrimónio. Estava determinada a não deixar que se separassem. Brian veio à sessão muito reluctantemente.
Trabalhei inicialmente com Mandy, uma vez que Brian estava cauteloso e indisponível para se abrir. Explorei a história e o seu contexto pessoal. Perguntei-lhe em seguida pelo casamento. Contou-me que não tinham relações sexuais há 6 anos, e que tinha aprendido a adaptar-se. Estava à espera que ele tomasse a iniciativa, coisa que ele nunca fez. Falou com amigos, que lhe disseram que ela não poderia de facto alimentar demasiadas expectativas, e para seguir em frente e se dedicar a outras coisas na vida, os filhos, etc.
Pedi-lhe que me desse uma percentagem para a qualidade do casamento em diversas áreas - intimidade, sexo, filhos, finanças, apoio. Variavam de 5% a 50% no máximo, com a intimidade no extremo mais baixo.
Ela disse-me que precisaria que a média subisse para 30% de modo a se sentir satisfeita, e estava disposta a fazer o que fosse necessário.
Pedi então ao Brian as suas percentagens. Eram de uma ordem semelhante, algumas um pouco inferiores ou superiores. Disse-me que teriam de subir até uns 75% para que se sentisse satisfeito.
Estes problemas, no entanto, já duravam há 10 anos. Eles não falavam muito de assuntos interpessoais, e ambos evitavam temas difíceis.
Mandy tinha conseguido lidar com a situação através da meditação. Brian entorpeceu-se a si mesmo e dedicou-se ao trabalho. Agora encontravam-se em crise. Ele não estava disposto a desistir do seu caso amoroso, ela não estava disposta a que as coisas continuassem na mesma. Encontravam-se num impasse, e tinham poucas competências para poderem falar sobre o assunto.
Averiguei junto de Brian, e para ele estava terminado. Não tinha interesse algum em dedicar-se ao casamento ou em salvá-lo, ainda que pudesse ser salvo. Ele tinha seguido em frente, e queria sair da relação.
Para Mandy isto era intolerável. Estava determinda em encontrar uma solução. O amor dela seria capaz de derreter a armadura dele.
Contudo, se ele não alterasse o seu caso amoroso, ela inisistiria até às últimas consequências, recusando-lhe a liberdade de se divorciar. Eu chamei a atenção de que tal parecia mais uma batalha do que um esforço para derreter a sua armadura através do amor.
Foi difícil para ela ver isso. Estava tão ansiosa, e tão determinada, que não podia encarar a verdade a respeito da posição em que Brian se encontrava.
Perguntei-lhe se para ele estava tudo realmente acabado, se não haveria algum tipo de circunstâncias em que pudesse mudar a sua decisão. Respondeu que assim era, essa era a verdade.
Pediu-lhe então que lhe oferecesse a ela esta sua afirmação ´verdadeira`.
Para Mandy foi quase impossível ouvir. Ela queria argumentar, convencê-lo, negar, ameaçar. Ofereci-lhe muito apoio, reconhecendo os seus sentimentos. Quando ela se permitiu receber a afirmação de Brian, disse que preferia morrer, era demasiado difícil.
Uma vez mais, ofereci-lhe o meu reconhecimento do quão mal ela se sentia, do quão assustada estava. Perguntei-lhe se gostaria de ouvir acerca da minha experiência de divórcio, e então partilhei com ela como tinha lidado com a situação.
Ajudou-a um pouco, mas ainda se encontrava extremamente angustiada.
Brian saiu do seu torpor e tornou-se mais brando, dizendo-lhe que gostava dela, que se sentia triste pela sua dor, mas que o seu gostar já não era de alguém íntimo, mas simplesmente como um amigo. Novamente, esta afirmação foi extremamente difícil de ouvir para ela, pelo que lhe ofereci um apoio emocional forte, de modo a que se pudesse manter presente.
Ela queria voltar a fingir, a evitar, mas era demasiado tarde.
Eu apoio sempre as pessoas no sentido de resolverem os seus assuntos passando pela experiência. Mas o meu compromisso primário é ajudar as pessoas a expressar as suas verdades, ouvirem-se umas às outras e obterem o apoio que necessitam para estarem presentes no processo. Isto é extremamente difícl quando se trata de algo tão devastador como o fim de uma relação.
Neste caso, ninguém iria ganhar nada com Mandy a continuar a ´tentar` diante da falta de vontade de Brian. Este seu ´tentar`era de facto uma espécie de tentativa de controlar a situação, e isto tornou-se evidente quando ela se deparou com as suas próprias vozes. Ela indicou que queria que o casamento ficasse intacto, independentemente do que ele queria.
Então eu pedi-lhe que lhe fizesse esta afirmação verdadeira - não me importa o que tu queres, só quero o que é importante para mim.
Ele valorizou poder ouvir com este grau de clareza, e foi difícil para ela dizê-lo, mas foi representativo do que realmente se passava. Tornou a transacção mais clara, e tornou-se evidente para ela que neste seu esforço não estava a tentar derreter a armadura dele com amor, mas na realidade a reinvindicar as suas próprias necessidades sem consideração pelas dele.
A isto eu chamo as ´não-virtudes` - a posse, o podermos apropriar-nos de lados mais obscuros de nós próprios. Identificamo-nos como amorosos, ou como vítimas, mas é duro reconhecermo-nos como alguém que de facto não se importa com a outra pessoa. É preciso muita coragem e muito apoio para ser capaz de o fazer, mas esta capacidade de ser verdadeiro é sempre refrescante, e ajuda a que possa acontecer algo diferente.
Esta sessão tratou-se de lidar com verdades muito difíceis, mas sem esta afirmação da verdade, acaba por haver simplesmente mais amargura, raiva e defensividade. A ´história`que cada um conta da relacção vai ficando cada vez mais entrincheirada.
Mas dizer a verdade não se faz como forma de ferir o outro. Trata-se da verdade pessoal de cada um de nós. O outro necessita de apoio para ser capaz de ouvir. Em Gestalt focamo-nos neste ´contar-a-verdade´ relacional, e entendemos que existe um poder transformativo em fazê-lo.
Abordamos as dinânimas relacionais desta forma com a intenção de melhorar a qualidade do contacto, não para obter um determinado desfecho, nem a aprovação ou rejeição de qualquer um dos parceiros.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Case #67 - Um casamento tradicional, ou um casamento moderno?

Hong e Yuen estavam noivos. Ela tinha 35 anos e ele 43. Vieram a terapia por causa de uma disputa difícil que não conseguiam resolver. De acordo com a tradição, Hong queria que a sua mãe viesse morar com eles após o casamento, ao que Yuen se opunha totalmente.
Após explorar um pouco  as circunstâncias de ambos, perguntei a cada um qual o principal tema de preocupação acerca do casamento. Ambos concordaram que este era o ponto chave.
No entanto, eles não tinham realmente debatido em profundidade um leque amplo de assuntos futuros. Assim, dei um passo atrás no sentido de os levar a ter uma perspectiva mais alargada. Num extremo pus um marcador simbolizando uma relação de casamento tradicional chinesa, e no outro extremo um símbolo para uma relação moderna. Perguntei-lhes então onde se situavam neste espectro. Hong distava 30% do extremo tradicional e Yuen 30% do extremo moderno.
Expliquei-lhes que este era o tema fundamental que estava em jogo, e que haveria muitas circunstâncias específicas em que esta diferença de posições se manifestaria em conflito. Pedi a cada um que fizesse uma afirmação resumida da sua posição. Para Hong, era dar-se bem com a família alargada. Ele queria que Yuen fosse "dócil e amável". Para Yuen, era ser independente, enquanto casal, e poder ter a sua própria opinião acerca das coisas.
Assim, primeiro pedi-lhes que disessem uma frase um ao outro: "Vejo que és diferente de mim, e isso é difícil." Este processo confrontou-os com a realidade da diferença. Hong tentou acrescentar "e espero que tu venhas a mudar", mas eu interrompi-o - este é um problema essencial com os casais, esperam que o outro (passado algum tempo) venha a mudar.
Então levei-os a dizerem uma outra frase: "Vejo a diferença entre nós; posso não concordar com os teus pontos de vista, mas respeito a tua posição."
Isto foi difícil para ambos, e Yuen estava resistente, uma vez que pensava que isso significava capitular perante a postura de Hong. Expliquei-lhe que respeito não significa ter de concordar, and ela finalmente pronunciou a frase.
Ambos se emocionaram muito ao dizê-lo - tinham que parar de tentar convencer a outra pessoa, e vê-la apenas. Isto é sempre ameaçador para os casais.
Foi também compreensível que Yuen se sentisse particularmente angustiada - não só estava realmente apegada à ideia de terem a casa só para eles, também tinha medo de ser anulada pelo peso da tradição no lado da família de Hong, e do facto de ser uma mulher, num mundo ainda- patriarcal.
Foi então que contei a Hong uma das descobertas nas investigações de John Gottman sobre casais - que os casamentos mais bem sucedidos são aqueles nos quais o homem está disposto a ser influenciado pela sua mulher. Isto deve-se provavelmente a que num sentido estrutural, os homens tendem a ter mais poder na maioria das áreas da vida.
Continuei então no processo de os ajudar a negociar este tema em particular. Expliquei-lhes que alguns assuntos têm posturas diametralmente opostas. Mas outros podem ter soluções criativas.
Yuen queria que pelo menos as noites fossem só para eles enquanto casal.
Hong propôs que a mãe pudesse vir durante o dia visitá-los, uma vez que tinha estado a usar uma divisão do andar de baixo como escritório. Yuen concordou.
Perguntei então qual a proposta dela. Ela queria os fim-de-semana para eles enquanto casal, com a concessão de que os pais de Hong pudessem vir jantar de vez em quando.
Hong não queria nenhum acordo rígido. Eu chamei a atenção para o facto de uma negociação precisar de ter limites bem estabelecidos. Eles discutiram então alguns detalhes, e chegaram a um acordo.
A expressão de Hong suavizou-se. Esta discussão tinha decorrido de uma forma excepcionalmente suave, e tinham ultrapassado os seus anteriores acessos de zanga quando se tocava no tema. Tinham de facto chegado a um acordo sobre estes assuntos.
Foi então que ele perguntou: "Como vou falar disto com a minha mãe?" Estava genuinamente angustiado: tinha diante dele uma tarefa para desenvolver este processo de diferenciação, e estava bloqueado.
Yuen por sua vez ficou também muito angustiada e começou a chorar. Tornou-se receosa de que Hong voltasse com sua a palavra atrás no acordo, e que simplesmente reivindicasse os deveres e obrigações do modelo tradicional. Começou a tentar discutir com ele.
Impedia-a, e em vez disso pedi-lhe que olhasse para a cara dele. Era muito difícil para ela, estava zangada e com medo. Quando ambas as pessoas estão angustiadas, é difícil para uma delas conter-se e estar presente para o outro.
Escolhi pedir-lhe a ela para o fazer. Ele eencontrava-se numa grande luta interna, dividido entre o sentido do dever e o desejo de querer dar prioridade à relação de ambos. Fora ela quem iniciara a sessão de terapia, e quem tinha mais conhecimentos psicológicos. Assim sendo, foquei-me nela e apoiei-a. Pedi-lhe que realmente viesse para o presente, que o visse a ele na sua luta. Era-lhe muito difícil, mas continuei focado nela. Apresentei-lhe o amor como uma escolha para ela naquele momento. Disse-lhe: " Consegues ver a luta genuína dele, e podes simplesmente amá-lo neste local, apesar de ser diferente?"
Ela pôs o seu medo de lado, e mudou subitamente. Disse-lhe: "Nunca esquecerei a minha intenção de te amar, ainda que existam diferenças". Isto foi um momento profundo entre eles, e também eu tinha lágrimas nos meus olhos. Tinham conseguido atravessar o conflito, e tinham de facto conseguido aprofundar o seu amor, e a sua capacidade de amar, de um modo muito significativo. Ele sentiu-se profundamente visto, e disse-lhe: "Neste momento és dócil e amavél para mim." Ambos tinham assumido um risco, e tinham agora chegado juntos a um novo local.
Relembrei-os de que iriam surgir novamente muitos assuntos deste tipo, mas que agora sabiam como superá-los.
Em Gestalt interessamo-nos nas diferenças como sendo um ponto potencial para uma boa qualidade de contacto. Tal requer auto-apoio na fronteira de contacto, e interesse no outro. Isto é difícil para a maioria das pessoas, e normalmente precisam de apoio para o conseguirem fazer. O apoio precisa de ser tanto prático - o como fazê-lo - como emocial. É um grande confronto depararmo-nos com a diferença, e frequentemente as pessoas zangam-se ou vacilam. Quando Yuen foi capaz de estar presente consigo mesma, e de seguida com Hong no momento da sua vulnerabilidade, uma situação impossível pôde mudar.

domingo, 26 de outubro de 2014

Case #45 - Como lidar com a miséria

A Betty queria falar sobre o seu medo. Ela não conseguia identificar o que o evocava, ou com o que estava relacionado.
Antes de consentir o seu foco, eu queria saber mais sobre ela. Perguntei-lhe sobre as crianças, o casamento, o trabalho. Tinha-se demitido recentemente do trabalho que mantinha há 20 anos, e estava num período de transição. A sua vida familiar era estável e segura, a sua filha bonita e talentosa, e o seu marido amava-a.
Mas há medida que a observava, ela não parecia realmente feliz. Perguntei-lhe se era feliz, e ela respondeu que não. Todos pensavam que ela tinha uma vida perfeita, a família perfeita. Perguntei-lhe o que estava errado.
Ela disse - o meu marido ama-me mais do que eu a ele. Eu estou segura com ele, mas foi um casamento arranjado e ele 'não é o meu tipo'. Perguntei-lhe qual era o seu tipo: um caráter forte, sentido pessoal claro sobre a visão da vida, bom gosto. Ele não tinha nada disso.
Isto causou-me impacto, e levei algum tempo a pegar nisto. A vida fantástica, mas algo essencial a faltar. Olhei novamente os seus olhos, e podia ver o quão miserável ela estava. Perguntei-lhe a idade - 44 anos. Perguntei-lhe se passaria os próximos 44 anos com ele, e ela respondeu que sim.
Então estava claro, a sua escolha era estar lá. Mas o custo disso era uma espécie de disjunção básica no sentido de ligação da relação. Uma espécie de necessidade básica de paixão, encontro e sinergia, que não etavam lá. Ela estava acomodada numa vida superficialmente feliz, mas que em alguma parte não correspondia com a sua necessidade profunda.
No Gestaltismo estamos interessados na escolha, e isto é entendido em termos das noções existenciais. A vida coloca-nos em diferentes situações, mas temos sempre escolhas. A nossa sensação de aprisionamento não vem de circunstâncias externas, mas por esquecermos a nossa liberdade de escolha momento a momento.
Com as escolhas vêm sempre as consequências, e uma vida bem vivida é aquela em que assumimos a responsabilidade das consequências, mais do que tentar culpabilizar os outros, ou passar a vida a desejar ter sido outra coisa.
Isto era muito o que a Betty enfrentava. As suas escolhas eram claras, e também as consequências. Mas ela estava miserável, portanto, a não ser que ela quisesse manter-se assim, algo tinha de mudar.
O que estava disponível eram escolhas diferentes na estrutura que ela decidira manter.
Eu perdi um quanto tempo apenas a estar com ela, observar a sua miséria, reconhecer que era assim. Este era o espaço relacional, onde nada havia a mudar, não haviam agendas, e o foco estava em ser, estar com, e reconhecer. Isto é também conhecido por 'eu-tu'.
Depois disto, eu mudei para a pergunta 'o que é possível'. Tomar este sentido, no início, simplesmente significava uma espécie de 'solução' para uma situação que parecia não ter solução. Mas, depois de estar presente por um tempo naquele espaço, podíamos então explorar juntamente as opções e perspetivas.
Perguntei-lhe se ele sabia a sua miséria, se ela lha mostrara como me mostrara a mim. Ela disse que não. Então, partilhei um evento da minha própria vida, quando a revelação da minha parceira sobre algo teve um grande impacto em mim. Na medida em que ele a amava, isto podia ser o princípio de algum tipo de mudança.
Salientei que ele não seria nunca 'o seu tipo', mas que se ele estivesse motivado, ele podia tomar alguns passos nessa direção. A bola estava no campo dela para lhe transmitir a ele as suas necessidades autênticas. O desafio era fazer isso de uma forma que conduzisse a resultados positivos.
Sugeri que lhe pedisse para ele olhar nos seus olhos por 10 minutos, sem conversar, mostrando-lhe a sua miséria. Depois disso, ela podia transmitir-lhe algumas pequenas mudanças que ela gostava que ele iniciasse, que seriam significativas para ela.
Mas isto não seria necessariamente a solução para a sua infelicidade. O facto era que ela estava numa situação em que as suas necessidades não seriam satisfeitas. Então sugeri que ela explorasse paralelamente a sua criatividade e uma espécie de prática espiritual. Isto podia ajudá-la a encontrar o âmago da felicidade que não estava dependente do ambiente externo.
Sugerir estas coisas como uma espécie de rumo para soluções não é próprio do Gestaltismo. Mas, no contexto de um sentido mais profundo de contato com a estagnação pessoal, esta possibilidade torna-se pessoalmente significativa, e existe uma motivação profunda para se deslocar nessa direção. Se existe um interesse, a pessoa pode ser ajudada por um suporte prático - uma conversa sobre como isso pode acontecer, e o leque de opções.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Case #44 - O casulo e o renascimento

A Nicole estava claramente aflita. Ela falou sobre um sonho que tinha tido, relacionado com a imagem de um casulo que ela tinha medo de quebrar, sem saber se iria transformar-se ou apenas morrer.
Peguei na imagem do casulo. Sugeri uma experimentação nesta base - por vezes não é necessário obter todos os detalhes do conteúdo, mas apenas partir de uma metáfora forte e clara que o cliente fornece. Neste caso, era claramente uma metáfora transformadora, diretamente relevante para a terapia, e que continha tanto o desejo como o medo de mudança. A experimentação Gestaltista é também designada 'emergêcia segura', sendo um equilíbrio que procuramos sempre - ajudar o cliente a levar em frente o desejo de vivacidade e, ao mesmo tempo, encontrar um caminho suficientemente seguro para arriscar a tentar algo novo.
Então convidei meia dúzia de pessoas do grupo a reunirem-se em volta dela como o casulo. Logo de seguida, ela começou a chorar mais intensivamente, e depois caiu no chão. Dei indicações para se sentarem todos em volta dela. Disse-lhe para não se afastar de si mesma, mas manter o contato ocular. De outra forma, alguém podia regressar, empurrar para o seu próprio mundo e para fora do relacionamento. Nesse caso, a emoção simplesmente continua a circular, numa forma que não é comum.
À medida que ela fazia isso, ela olhava para uma das mulheres e dizia 'eu não gosto de si'. Isto, contudo, não era claramente acerca dessa mulher - ela estava a lembrar-se da sua mãe. Então pedi-lhe que falasse diretamente para ela, dizendo tudo o que quisesse dizer-lhe.
'Porque me abandonaste', perguntou ela. No Gestaltismo, as perguntas porquê não ajudam, e pedimos às pessoas para as substituir por declarações.
Fora isto, vieram as suas declarações - a sua dor por ter sido abandonada em criança pela sua mãe. Novamente, não precisei de saber os detalhes da história para trabalhar com ela. Ela estava no processo, e isso era suficiente.
Tinha de a apoiar a estar presente, a manter o contato ocular, a respirar profundamente. Muitas emoções emergiram para ela, assim como para a representação da 'mãe'.
O apoio do círculo foi importante para lhe dar a sensação de ser apoiada num local onde ela normalmente colapsa internamente.
Finalmente, ela estava muito cansada, e apenas queria deitar-se.
Então deixei-a deitar-se na almofada representativa da seu mãe, e permiti que adormecesse.
Quando acordou, dez minutos depois, ela sentia-se renascida, e com sensação de calor e ligação no seu coração, onde antes havia vazio e sofrimento.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Case #43 - A voz tóxica de mãe


A Theresa tinha deixado um emprego seguro para iniciar a sua própria empresa. 'Pelo desafio', era a razão que dava.
Mas ela experienciou uma forte ansiedade a maioria do tempo - exceto quando sabia que algo ia falhar. À medida que obtinha sucesso, ela sentia ansiedade até ao momento em que sabia que o sucesso estava completamente seguro. A ansiedade refletia-se também na sua vida pessoal.
Ela não compreendia de onde ela vinha, ou o que podia fazer acerca disso.
A mim parecia-me algo relacionado com o controlo - necessidade de estar em controlo, das coisas serem de certa forma. Perguntei-lhe sobre o contexto do seu terreno. Nós concordámos em estabelecer que a sua mãe se encontrava muito no controlo.
À medida que falávamos sobre isto, ela teve uma dor de cabeça. Ficou claro para mim que a sua mãe estava 'na sua cabeça'. Então convidei-a a colocar a mãe na almofada, e falar com ela. Esta é a experimentação clássica do Gestaltismo - ter diálogos intrapsíquicos e torná-los explícitos.
Pedi-lhe que dissesse algo à sua mãe, e depois trocar fisicamente - sentar-se no local da 'mãe' e dar resposta.
Eu estava chocado com as coisas que a sua mãe fazia. A envergolhá-la, e mesmo pior - por exemplo, a rebaixar a Theresa por ser 'feia', contrariamente à sua bela irmã; dizer que ela era uma má pessoa; dizer que ela (a mãe) nem sequer queria ter filhos, era apenas um dever, ela queria ter um rapaz.
Isto não é apenas uma fraca capacidade maternal. Merece o título 'toxicidade materna'. Isto não é algo passível de dialogar.
Eu sugeri que a mãe parasse de falar com a Theresa, e eu 'entrevistava-a', para tentar entender mais sobre ela.
Fi-lo...e a mãe deu várias respostas interessantes, confirmando o 'diagnóstico' supracitado. Ela considerava a Theresa como um fardo, e estava apenas interessada em como as crianças a faziam parecer bem. A Theresa era agora um sucesso financeiro, fazendo-a parecer bem, e então já não se sentia mais incomodada com ela.
Agora...pode dizer-se que isto era tudo a projeção da Theresa. Mas as declarações que a mãe fez para a Theresa neste diálogo eram realmente paravras que ela usava.
O objetivo é não tornar a mãe patológica - ela obviamente teria as suas próprias lutas. Mas, claramente, tal desvalorização das suas próprias filhas tornou-se tóxica...e produziu uma falta de confiança que resultou na ansiedade da paciente.
Então convidei-a a falar para a mãe, desta vez, a colocar as fronteiras muito claras. Ela começou a dizer 'por favor, não...'. Eu interrompi-a...na medida em que isto dependia ainda da sua mãe fazer algo, o que parecia pouco provável.
Pedi-lhe para reformular para que viesse dela...'eu não vou aceitar...'. Isto proporcionou uma fronteira clara - algo que é um foco importante no Gestaltismo.
Fazer diversas declarações destas foi muito poderoso. Ela precisava de ajuda para as reformular. Posteriormente, ela sentiu-se mais estável, e esclarecida em termos do que precisava para deixar de permitir que a voz da sua mãe na sua cabeça abalasse a sua confiança.
Isto envolveu uma experimentação clássica do Gestaltismo, trazer um diálogo interno fechado a abrir-se, e depois promover o apoio necessário para se deslocar nesse local.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Case #42 - Seguro e inseguro

A Yasmin tinha-se divorciado recentemente. Ela falou sobre querer ficar madura e distanciar-se mais dos seus pais. Tinha muita emoção nos seus olhos, que eu observei e demarquei, juntamente com várias outras coisas sobre ela - um xaile colorido, missangas em volta do pescoço.
Ela disse - 'sinto-me segura consigo'. Eu respondi - 'de algumas formas isso é uma projeção, porque eu sou apenas eu - seguro em muitas formas, em determinado ponto eu posso sentir saudades e assim não ser tão seguro'. Ela achou isto difícil de ouvir, e lembrou-se das suas dificuldades com o pai, e a sua necessidade de clarificar as fronteiras com ele quando se sentia confusa e enebulada.
Ela disse que apreciava ser vista por mim...e que era algo de que precisava. Falou sobre a sua dificuldade em ser vista como um elemento separado dos seus pais, e as suas dificuldades em ser amada por eles unicamente de forma condicional, como uma boa menina.
Equanto me sentei com ela, reconheci as formas em que podia vê-la no seu ser infantil, com as suas necessidades de aprovação, aceitação e carinho; e, ao mesmo tempo, no seu ser adulto, querendo e precisando de diferenciação, sendo ela mesma, encontando o seu próprio terreno e clarificando as suas fronteiras.
Isto foi demoveu-a profundamente, ser vista em ambas as partes e ser mantida por estas ao mesmo tempo. Este foi um dos momentos 'eu-tu'. Falei sobre a forma como, neste local onde me sentia espaçoso, térreo e presente, eu podia criar as condições de segurança para ela ser capaz de sustentar/apoiar/atender e também libertar - encorajando para se mover na sua própria vida, para que nos pudessemos encontrar como iguais.
Isto entoou nela em diversos níveis. Eu falei com ela como adulta, reconhecendo ambas as fronteiras entre nós, e a conetividade como duas pessoas que buscam. Depois convidei-a a falar-me do local de criança, a nomear o que queria de mim.
Ela disse que o que ansiava do seu pai era o reconhecimento de que ela era importante para ele. Eu disse que estava satisfeito de ter mudado para o modo de 'pai' - eu tenho filhas crescidas...e podia falar desse local para ela. Então falei 'como' o seu pai, dizendo-lhe o quão precisosa ela era para mim.
Depois ela pediu para ouvir que ela era amada, independentemente de tudo. Eu retratei isso, declarando que embora pudesse discordar das suas escolhas, ou mesmo não gostar de aspetos dela, que o meu terreno relacional familiar era a ligação de amor.
Desta forma, eu podia responder a uma profunda necessidade que ela tinha de ser vista neste local. Na natureza do processo terapêutico, eu não era efetivamente o seu pai, mas o impacto era praticamente o mesmo.
Este é o resultado de estabelecer um terreno relacional forte e profundo no processo terapêutico, que assim permite às declarações um efeito transformador.
Ela sentiu-se mais completa, e capaz de juntar as suas partes de adulta e criança.

domingo, 5 de outubro de 2014

Case #41 - O cliente pertuebador

A Francis estava a tossir, de tal forma que realmente me perturbava. Ela veio trabalhar e eu evoquei isso - eu disse 'bem, certamente conseguiu chamar a minha atenção com a tosse'. Ela disse 'sim, eu tendo a perturbar as pessoas'. Eu respondi 'bem, perturbou-me com a sua tosse'.
Então explorei o 'perturbar'. Expliquei que também havia formas positivas de perturbar as pessoas - como por exemplo, os comediantes. Os revolucionários. E pessoas que perturbam o estatuto social de um grupo - também são precisas. Eu queria enquadrar o 'perturbar' de outras formas, para ampliar o sentido das ecolhas disponíveis para ela.
Convidei-a a 'perturbar' alguns elementos do grupo. Ela, brincando, beliscou as bochechas de uma pessoa e deitou-se sobre os pés de outra.
Estas foram atitudes iluminadas e divertidas que ela desempenhou espontaneamente, que lhe deram imediatamente uma diferente forma de estar a 'perturbar'.
Perguntei-lhe sobre o seu contexto - quem era perturbador na sua família. Ela disse que tinha descoberto recentemente que a sua mãe estava a ter um caso. À medida que eu aprendia mais, parecia que o seu pai tinha tinho diversos casos ao longo dos anos.
Isto era obviamente algo que a desassossegava, mas eu não queria muito meter-me no que os seus pais estavam a fazer. Ela disse que se sentia culpada...como se, de certa forma, o caso da sua mãe fosse culpa sua porque tinha saído de casa. Eu disse 'bem, não lhe compete a si assumir a responsabilidade pelas atitudes da sua mãe'.
Eu queria trazer o foco de volta para ela. Então disse, 'está a olhar-me com um foco muito intenso - tem a minha atenção neste momento'. Ela comentou que algo faltou no seu crescimento - os seus pais estavam tão ocupados com os seus próprios problemas e conflitos que não lhe deram muita atenção. Quando ela tinha atenção, era frequentemente reativa. Ela falou sobre querer atenção carinhosa, e não atenção crítica. Eu salientei que, para uma criança, a atenção negativa é melhor do que a falta de atenção...ao fazer isto, de certa forma, estava a reconhecer a sua escolha em ser 'perturbadora' na sua vida adulta para obter atenção, mesmo que o tipo de atenção não fosse o melhor.
Pedi-lhe que reparasse, no presente, como era ter a minha atenção e a atenção do grupo. Ela notava pequenas alterações na atenção do grupo - algumas pessoas estavam distraídas. Podia ver como ela estava sintonizada nas dinâmicas atencionais dirigidas do grupo.
Então eu disse, 'ok, eu quero que esteja realmente presente com a atenção que lhe estou a dar neste momento'. Sentá-mo-nos ali por um tempo. Notei que me senti muito liso...normalmente as coisas ocorrem-me, experimentações criativas, introspeções, perceções. Eu sentia-me completamente plano com ela, como uma paisagem completamente vazia.
Então declarei, e ela concordou, que tinha este feedback do seu marido e dos outros...e que também se sentia lisa.
Reconheci este espaço partilhado num momento 'eu-tu'. Frequentemente, estes momentos de intimidade e ligação são entendidos como repletos de profundos sentimentos. Mas a partilha aqui estava despida. Eu disse 'é difícil para mim, parece que perdi toda a minha ciatividade, não estou habituado a isso'. Ela deflagrou - gostou da palavra criatividade.
Ela disse, 'eu quero fazer algo perturbante e atrever-me perante si'. Eu convidei-a a seguir em frente. Ela beijou-me na bochecha. 'Ah' disse eu, 'um esguicho de cor contra a paisagem!'
Foi um momento de contato luminoso, no contexto de um momento de profunda partilha. Como resultado, houve uma profunda mudança nela, algo tinha sido libertado.
Esta foi a consequência do processo não linear de seguir a corrente da consciência à medida que ela emerge em nós - o tema da atenção e perturbação. No Gestaltismo não trabalhamos muito de forma focada no objetivo, de forma linear, mas mais como um rio a correr, deslocando-nos com a corrente, imergindo-nos na fenomenologia do cliente, ou no que pode ser chamado instrospeção encarnada.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Case #40 - Precisar de apoio, precisar de independência

A Martha tinha lágrimas nos olhos, e estava a morder o lábio. Eu observei isso, e ela comentou que estava a conter os seus sentimentos. Convidei-a a respirar, a estar presente... e as lágrimas aumentaram.
Ela contou a sua história, uma longa e penosa história, acompanhada de muitas lágrimas. O seu pai trabalhava numa outra cidade. Ela, a mãe e a irmã tiveram de mudar para uma pequena cidade enquanto ele estava fora, e tiveram de ficar com os avós maternos. Mas, o avó tratava-as mal a todas...se as crianças faziam muito barulho, ele ameaçava tirá-las de casa e inclusivamente colocou as suas malas do lado de fora ocasionalmente. Antes disso, a sua irmã tinha vivido com os avós e, sempre que ela e a mãe os iam visitar, os avós apontavam falhas na Martha e colocavam-na contra a sua irmã.
Finalmente a sua mãe saiu de casa, para uma casa própria. Mas ela era uma bonita mulher e, frequentemente, o homem com quem ela trabalhava na loja vinha até à casa, procurando por ela. Ela mandava-o embora, mas uma vez permitiu que ele entrasse, e começaram a ter um caso. A Martha estava sempre assustada quando ele vinha lá a casa.
Quando o caso foi descoberto, a sua mãe foi envergonhada publicamente na pequena comunidade em que viviam. E a Martha foi envergonhada pelas crianças na escola. Depois, o seu pai voltou, os avós bateram na mãe...os traumas continuaram.
Esta era uma história repleta de dor e sofrimento. Enquanto a contava, ela procurou a minha mão e apertou com força. Sentá-mo-nos assim enquanto ela desabafava.
Há diferentes tipos de histórias na psicoterapia. Algumas são antigas, mortas e repetitivas, servindo apenas para reforçar o desamparo e talvez ganhar simpatia. Estas histórias têm de ser trazidas para o presente, trazidas à vida através de experimentações corporais e da respiração através das emoções.
Mas esta história estava viva, estava sentada ali, a aguardar por ser contada há 30 anos e, nas circunstâncias adequadas, sair, flutuar, libertar-se, integrar-se no caminho.
Assim que ela acalmou eu larguei a sua mão, mantendo-me junto dela.
A Martha disse que havia luz ao longo do caminho. A intimidade que tinha com a mãe e irmã, mesmo quando apenas tinham pão e feijões para comer. E os namorados que teve, especialmente o primeiro, eram carinhosos e atenciosos com ela pelos problemas da sua família.
Este apoio continuou com o seu marido, de quem era muito próxima, e eles tiveram uma relação muito apaixonada. Tudo bom. Exceto após 20 anos, com o crescimento do filho, ela não estava mais apaixonada por aquele lugar que tinha sido o seu abrigo quando ela saiu daquela cena familiar dolorosa.
Ela procurava uma nova direção, crescimento pessoal, e uma mudança de carreira. Mas o seu marido segurava a sua mão, como sempre. A relação tinha funcionado porque ela precisava de apoio e ele dava. Mas agora, ela precisava de independência, e ele ainda se mantinha na mesma.
Eu salientei o paralelismo com a sessão. Ela precisou de mim ao atravessar o trauma. Mas, no final, eu pude largar a sua mão, ela apenas precisava de mim junto a ela e não mais a segurá-la.
Eu delineei-lhe os tipos de declarações que ela podia fazer ao marido, ajudando-o a compreender e ser capaz de lidar com o facto de ela precisar de seguir um rumo mais independente, e talvez ajudá-lo a lidar com as suas inseguranças sobre isso. Por sua vez, isso dar-lhe-ia o apoio que ela precisava agora da parte dele - estar confortável com ela ir e vir.
Chegando a esta parte da sessão, ela estava capaz de ver como devia proceder com maturidade e diferenciação, lidar com a alteração da dinâmica da relação, e com a sua posição na sua vida.

sábado, 27 de setembro de 2014

Case #39 - A forte florista

Quando solicitei voluntários, a Fran destacou-se. Já tinha reparado nela, tinha sido a primeira a colocar uma questão.
Em vez de lhe colocar questões, comecei com os pontos de ligação que já tinha com ela - coisas que reconheci, e as minhas respostas aos aspetos da minha experiência sobre ela.
Ela disse que era frequentemente a primeira a voluntariar-se, e eu partilhei que isso acontecia também comigo. Isto criou imediatamente um terreno entre nós. Perguntei-lhe em que é que trabalhava - era florista, mas disse que queria abrir o seu próprio negócio nesta área, e que estava determinada a ser bem sucedida. Eu podia ver que ela era uma jovem mulher, brilhante e confiante, e disse-lhe que, quando ouvi a forma como ela partilhou os seus planos, acreditei nela.
Novamente, isto é construir um campo relacional de trabalho, e reconhecer o que se destaca nos termos do processo.
Perguntei-lhe qual era a sua flor favorita (para descobrir o que era figurativo para ela). Ela respondeu o girassol. Declarei o quanto gostava deles, e o que eu gostava neles. Ela disse que gostava de uma variedade de coisas - que eram alegres, luminosos, fortes, altos...
A forma como ela disse 'fortes' foi enfatizada, então perguntei-lhe de que forma ela se sentia forte. Ela explicou que, de facto, era forte e estava contente com essa qualidade, pensando que quando se sentia irritada podia ser destrutiva.
Então convidei-a para uma 'luta livre terapêutica', onde nos colocávamos em lados opostos e empurravamos as mãos um ao outro. Isto foi divertido, e permitiu-lhe sentir a força completa da sua agressividade de forma segura, em jogo e contato. A experimentação também mostrou que a sua irritabilidade e agressividade podiam ser positivas, e não apenas negativas. Isto proporcionou mais terreno entre nós.
Eu salientei que as mulheres fortes não são sempre apreciadas na sociedade, enumerando alguns potenciais fatores contextuais para ver como ela reagia a isso. Ela disse que por vezes era demasiado forte, e que ultrapassava as pessoas. Eu pedi-lhe um exemplo, e ela falou sobre um taxista que não queria utilizar o metrónomo e com quem ela gritou. Eu podia compreender a sua reação, e salientei que eu poderia ter feito o mesmo. Mesmo assim, ela disse que se sentia triste por ter perdido o controlo.
Então perguntei-lhe sobre o seu contexto, a sua família, e quem na sua família era fora do controlo. Ela disse que o seu pai expressava frequentemente emoções fortes enquanto ela crescia. Mas em vez de se assustar com isso, ela tornou-se também assim...e por isso não gostava de estar fora do controlo da sua irritabilidade, mesmo que isso pudesse ser razoável no caso do taxista.
Eu podia compreender isso e sugerir que, agora que ela tinha crescido, talvez ela pudesse escolher quais das qualidades do seu pai ela queria manter, e quais não queria. Então, coloquei uma cadeira em frente a ela a representar o seu pai, e pedi-lhe que 'falasse diretamente para ele' sobre isto, ajudando-a a articular as frases que tornavam claro o que ela apreciava e queria manter, e o que ela queria deixar, não seguindo as suas pegadas.
Ela sentiu-se aliviada depois disto, e mais capaz de se sentir confortável com a agressividade como uma força através da qual ela podia fazer escolhas, em vez de algo com o qual se sentia mal ou que a desafiava.
Isto é o que designamos 'integração' e ocorre, não apenas em termos de introspeção cognitiva mas especialmente somática, mas como uma alteração baseada no corpo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Case #38 - A mulher que fracassou

A preocupação da Jemma era o fracasso. Ela tinha fracassado em tudo - teve 5 acidentes a trabalhar para a companhia, cometeu erros de computação para outra e, constantemente, ela sentia-se um fracasso.
À medida que trouxe esta preocupação, eu fui prudente. Ela contou história após história, uma a convergir na outra. Estava chorosa, a desabar, e eu podia ver-me a trabalhar com ela durante horas sem chegar a nenhum lugar. Também mencionou os problemas que estava a ter com os seus pais, depois de ter saído de casa, sentindo-se muito irritada com eles, suspeitando do seu pai e das suas intenções. Ela estava claramente desesperada por ajuda, e esse mesmo desespero colocou-me de fora. Vi-me a reagir, a querer afastar-me.
Então sabia que tinha de avançar diretamente para o coração, e isso incluía-me a mim mesmo. Disse-lhe - vamos então trabalhar com o fracasso; está a acontecer neste momento - o seu estilo está a ter um impacto em mim. Ela assentiu - ela podia sentir que eu tinha essa reação e, claro, esta era a sua experiência familiar.
O primeiro passo para alguém fechado numa forma de ser autodestrutiva é trazer tudo para o presente, em vez de ouvir histórias 'sobre' isso. E a melhor forma de fazer isso é observar como se molda no relacionamento.
Então pedi-lhe para jogar um pequeno jogo comigo. Pedi-lhe para adivinhar como eu estava a reagir ao seu fracasso comigo - depois de cada duas respostas eu diria se ela estava certa ou não.
Ela disse que eu estava a dar o meu melhor para ser paciente. Eu respondi que não. Ela sugeriu que eu tinha compaixão em relação a ela. Eu respondi que não.
Eu disse-lhe - sinto-me irritado consigo.
Depois pedi-lhe para adivinhar como isso me faria sentir. Ela achou que eu estava a suprimir esses sentimentos. Eu disse que isso era, em parte, verdade. Ela sugeriu que eu estava a sentir isso na minha barriga e no meu peito.
Então disse-lhe que, de facto, sentia irritação perante ela, e que sentia uma espécie de pressão interna no peito.
Pedi-lhe para fazer esta experimentação porque queria tirá-la do seu pântano de auto-piedade e daquela fórmula de prisão no fracasso. Queria que ela observasse que era uma experiência criada com a sua cooperação, e que ela era, efetivamente, a única a sofrer com isso. Também foi horrível para mim. Também lhe pedi para fazer isto, na medida em que estava claramente paranóica (com o seu pai), que era melhor praticar o 'jogo de adivinhar' e ter a oportunidade de estar correta, em vez de estar isolada nas suas projeções.
Depois convidei-a a trocar de lugar. Eu seria ela, e vice-versa. Então eu estava triste, a sentir-me um fracasso, e ela era a irritada.
Ela reparou em si mesma nesse papel 'eu sou mesmo como os meus pais - censurando, gritando, criticando, colocando para baixo, pressionando para o desempenho'.
Isto foi útil porque, uma vez mais, puxou-a da sua parte identificada da polaridade, dando-lhe uma sensação experimental mais ampla sobre o que estava a acontecer.
Depois dei-lhe a metáfora do recrutamento - é como se ela me recrutasse para o trabalho de estar irritado com ela, e fê-lo de forma tão bem sucedida que, num minuto a ouvi-la, eu senti-me mesmo irritado. Também salientei que, em determinado nível, eu concordei em desempenhar o outro lado disso, e foi a parte sádica de mim que o consentiu.
Expliquei que isto era um jogo de duas pessoas. Ela disse - realmente, quando estava a desempenhar a irritada, lembrou-se da pressão que também os seus avós desempenhavam desta forma.
Então, de facto, isto retratava as operações no seu terreno.
Dei-lhe outra metáfora: um guião, e jogadores disponíveis. Ela reproduzia o guião em cada uma das áreas da sua vida. Ela concordou. Isto encaixava o que sucedia no terreno, em vez de colocar em termos individuais (o seu problema), e salientava a natureza compulsiva e inexoravelmente repetitiva da sua natureza, e dos que a rodeiam, num processo transacional.
Depois convidei-a a escolher qualquer jogo com que estivesse familiarizada, com personagens que fossem semelhantes ao seu campo pessoal. Ela descreveu um drama particular com personagens que expressavam exatamente todo o processo que ela encobria.
Então pedi-lhe um exemplo de outra história - filme ou teatro, onde houvesse um guião diferente. Aqui eu estava a explorar amplamente, outros recursos no campo, outras formas de ser. Ela escolheu o Harry Potter, e depois perguntei-lhe que personagem ela queria ser, tendo ela respondido o Harry.
Pedi-lhe que me olhasse como o Harry Potter olha. Isto tinha a ver com a forma como ela desempenhou o papel de vítima usando os seus olhos - ela olhou-me de uma forma particular.
Ela tentou esta experimentação e, à medida que explorávamos a natureza do Harry Potter nos filmes - a sua incapacidade de ser morto, etc., ela começou a ter um sentido mais consistente de si mesma nesta aparência.
Ela sentiu uma mudança na sua identidade e, por outro lado, eu senti-a de forma diferente.
Avançar com este processo requereu que eu estivesse muito presente com ela, e que fosse muito honesto a todo o tempo. Eu trabalhei o relacionamento, com uma variedade de experimentações, das quais a última foi 'a mudança de terreno'...mas requereu tudo o que foi passado antes.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Case #37 - A lança abusiva e a lança protetora

Eu calculei que a Celia estivesse nos seus trintas, mas de facto ela tinha 51 anos, com uns poucos filhos. Era notável, dada a dura vida que tinha tido, no entanto ele aparentava-se calma - e, por isso, a sua aparência jovem. Isto eram coisas que eu não tive espaço para explorar, mas que pensei anotar para trabalho futuro. É sempre importante reconhecer impressões imediatas, e mesmo 'olhar com novos olhos' clientes familiares para observar discrepâncias ou coisas com relevância para a terapia.
Ela trouxe a questão do medo de desempenhar o tipo de trabalho que tinha vindo a praticar nos últimos 10 anos. Queria ser assistente social, e agora os seus filhos tinha deixado a casa, este era o seu objetivo declarado.
Mais do que tentar trabalhar a sua confiança e procurar os seus medos, eu queria descobrir o seu contexto - o apoio no seu ambiente para que ela o fizesse. Ela tinha apoio profissional de um grupo de assistentes sociais, portanto esse não era o problema.
Contudo, o seu marido tinha dito que se divorciava dela se ela prosseguisse esta linha profissional. Esta era uma reação relativamente forte, mas não inteiramente surpreendente dada a cultura patriarcal em que esta sessão se desenvolveu.
No entanto, quando aprofundei a questão, ela revelou que estava numa relação de violência doméstica há décadas.
Pareceu-me estranho que em 10 anos de estudo e terapia relacionados com as suas aspirações sociais isto nunca tenha surgido, ou que as suas professoras não se tenham sentido de alguma forma responsáveis por saber com o que ela lidava.
Na terapia é importante não nos focarmos apenas nos sentimentos, mas também no contexto, particularmente num contexto de abuso constante. Isto precisa de ser mantido como foco da terapia.
Então, eu não estava disposto a lidar com outras questões, a não ser que isto estivesse no âmago - o seu medo compreendido - foi identificado. Ela disse que a violência tinha cessado recentemente.
Eu contei-lhe os meus próprios sentimentos enquanto me sentei com ela - aberto a ela, a sentir-me muito ligado com a seriedade das questões, querendo apoiá-la, mas também muito cauteloso e a querer avançar de forma respeitadora.
Salientei que o medo era praticamente 'um membro da família'. Ela concordou. Pedi-lhe que desse uma identidade ao medo - ela disse uma figura com roupas pretas, grandes olhos, um sorriso e uma lança. Descreveu-o como 'misterioso'.
Perguntei-lhe por mais detalhes - como eram as roupas. Queria mesmo colocá-la em contato com o seu medo. Depois convidei-a para participar numa experimentação Gestaltista: 'ser' o medo - para me mostrar como o medo se apresentava, com a sua lança, e olhos grandes.
Ela fê-lo - e eu fi-lo com ela. Frequentemente é bom fazer estas experimentações com o cliente.
Depois pedi-lhe que se sentasse novamente - não queria perder muito tempo com isto. Descrevê-lo, sê-lo, era já um grande feito.
Ela disse que tinha sentido como se eu lhe tivesse dado muito neste processo, e que se sentia relutante em aceitar mais - como se me tivesse que dar de volta a mim. Ela explicou que foi educada a 'estar lá' para o homem e, embora ela se tivesse revoltado contra isso enquanto menina, fazia parte do seu condicionamento.
Então eu 'peguei' nesta situação e parei. Eu disse, 'ok, então o que gostava de me dar de alguma forma; eu estou aberto a receber'. Sentá-mo-nos em silêncio e depois ela disse que queria dar-me o reconhecimento pelo que tinha feito até ali.
Depois de estarmos assim, ela sentiu-se novamente segura comigo, pronta para continuar. É bastante importante ouvir o que ocorre exatamente com o cliente, momento a momento, e estar com ele nesses momentos, acompanhando o seu ritmo.
Perguntei-lhe onde estava o medo agora - ela respondeu que estava dentro dela. Ela disse que a lança estava a tocar na sua cabeça e a magoá-la.
Avancei para um modo relacional direto com ela. Disse-lhe que me sentia triste pela dor que ela vivia, profundamente triste. Queria 'resgatá-la', protegê-la, mas não sabia como o fazer.
Ela estava muito agitada, e sentá-mo-nos numa ligação silenciosa por um tempo. Esta foi a chave da mudança - alguém que se preocupava, que podia estar com ela de forma protetora, mas sem apressar as coisas estabelecidas.
Este foi um momento 'eu-tu', com dois seres humanos amplamente conetados. Eu era o terapeuta e ela a cliente, mas naquele lugar, eramos duas pessoas, sentadas uma com a outra e com a profunda dor da situação. Levei a sua dor muito seriamente - não apenas como uma experiência em jogo, não apenas como uma figura de medo, mas de facto várias décadas que valeram o medo relacionado com a violência.
Sentados neste local, eu também tinha uma lança, uma lança de proteção. Convidei-a a 'levar-me', com a lança, para o seu coração.
Ela conseguia fazer isto com facilidade, e com lágrimas. Ela sentia-se segura e apoiada.
Isto refere-se a um 'objeto pessoal' - 'levar-me' significava que ela tinha uma figura de autoridade dentro dela que estava lá para ela, na medida em que a experiência anterior de autoridade no seu crescimento era supressora, e que ela esperava estar lá para o homem na sua vida.
Apesar de não ter 'ocorrido' muito na terapia, teve um grande impacto. No final, perguntei-lhe onde estava o medo em relação a mudar de profissão. Ela respondeu que já não se sentia mais intimidada. Perguntei-lhe - mesmo que isso custe o divórcio? Ela respondeu, sim.
Agora, isto é apenas um pedaço de trabalho no que precisa de ser uma terapia contínua com o relacionamento, e lidar com isto após uma longa fase de violência. Eu gostava de manter um olhar atento a isto, como se fosse possível reverter a situação de violência, e como profissional, como uma pessoa que se preocupa devidamente, garantir que não faço parte de forma alguma desse ciclo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Case #36 - A mulher que não sentia nada

A Brenda falou de não ter uma identidade clara - facilmente perdia o sentido das fronteiras e identificava-se com os outros.
Também falou de ser envergonhada, não gostar de ser fotografada ou colocada sob atenção.
Estes eram indicadores de necessidade de proceder com cautela e sensibilidade, e consciência de potenciais questões de vergonha (relacionadas com a exposição).
Deixei-a saber que eu não queria explorar mais do que para ela estivesse bem.
Salientei que estavamos em frente de um grupo de pessoas, e perguntei-lhe como se sentia com isso. Ela disse que olhavam para ela mas que não se sentia observada. Perguntei-lhe se isso tinha a ver com o pouco conhecimento que tinham sobre ela, ou porque ela se estava a esconder. Ela disse ambos.
Isto ajudou a enquadrar-me na dinâmica relacional. Então coloquei isso de volta nela - eu estava a olhar para ela, mas ela também se escondia de mim. Ela disse que sim, que fazia isso com toda a gente.
Isto, evidentemente, causa um impasse relacional - uma parte dela deseja ser vista, mas outra parte não o permite. Isto foi um aviso de que eu tinha de proceder com cuidado, ou simplesmente me tornaria frustrado e apanhado nesta dinâmica.
Então, em vez de explorar, disse-lhe coisas que ela já tinha permitido que eu observasse acerca dela - pedaços de informação pessoal que ela tinha partilhado. Refleti também o que tinha visto - por exemplo, a cor das roupas que ela usava.
Isto criou algum terreno para o que havia entre nós, sem lhe perguntar mais questões, indicando que eu estava presente com o que ela partilhava e com o que ela tornava disponível. Em casos de vergonha é importante partilhar algo de nós mesmos, em vez de examinar excessivamente a pessoa.
Mas os seus olhos ainda estavam vidrados, e ela relatava que estava à deriva. Isto indicava que o contato era muito. Então, perguntei-lhe onde ela derivava...ela disse num local de inúmeros mundos, vidas passadas.
Isto indicou-me dissociação, e as questões de segurança encontravam-se primeiramente aqui.
Sugeri que derivasse efetivamente para um estado de sonho, e que eu podia fazer o mesmo, e que podia convidar todos os que estavam no grupo para este tipo de estado, de maneira a que pudessemos sentar-mo-nos todos juntos nesse local.
Esta sugestão tomou-lhe um momento, e encorajei-a seguidamente a convergir nesse sentido. No Gestaltismo chama-se a teoria paradoxal da mudança - estar com o que é e inclinar-se para isso.
Ela disse 'não sinto nada'.
Por outras palavras, ela estava completamente dissociada. Neste local, apenas um determinado tipo de contato está disponível.
Perguntei-lhe que tipo de apoio precisava para se sentir segura. Partilhei a minha tristeza - de que não estava a olhar para ela de todo, não estava a tentar vê-la, o seu esconderijo estava completamente adequado. Disse-lhe que sentia calor em relação a ela, mas que não conseguia encontrar forma de a alcançar.
A Brenda olhou-me e disse 'eu não gosto de aceitar apoio'.
Esta foi a revelação que me indicou como proceder.
Sugeri uma experimentação - ela levantava duas mãos - uma mão empurrava, e a outra estava aberta para receber apoio.
Fizemos isto e ela foi capaz de receber o meu apoio - lentamente alcancei a sua mão aberta com a minha e segurei-a.
Depois ela relatou que havia uma 'força' que lhe dizia para não sentir. Pedi a alguém que se colocasse em frente a nós, representando essa força. Ela não conseguia/queria identificar o que isso representava, o que não levantava problema.
Esta foi uma declaração de diferenciação e integração.
Ela podia permitir a si mesma sentir, aceitar apoio, colocar-se na relação, ser vista naquele lugar, e ter uma sensação de poder de escolha.
Este trabalho foi lento, e requereu que eu constantemente respeitasse as suas fronteiras, não perguntasse demasiados detalhes, mesmo sobre o que estava a sentir...mas também não desistindo. Normalmente, as pessoas reagem a quem estabelece este tipo de fronteiras privadas - ou afastando-as, ou encontrando-as de forma desconexa, ou bombardeando a pessoa com interesse e bondade. O que é necessário é uma presença neutra, com calor suficiente mas sem exagero, interesse suficiente mas não demasiado - isto é chamado sintonia e é o âmago da capacidade relacional.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Case #35 - Irritada com o ex

A Marion evocou a questão dos arranjos parentais partilhados com o seu ex-marido. Tornou-se claro que esta não era uma preocupação substantiva. O que era mais relevante era o seu desconforto e assuntos inacabados com ele.
Antes de entrar em detalhes disse-lhe - a minha experiência quando a olho é como se os seus olhos me perfurassem. Tinha mesmo um grande impacto em mim. O que eu tenho em comum com o seu ex-marido é que também sou homem, e imagino que alguma dessa energia que sente em relação a ele também está presente aqui comigo.
Quando lhe perguntei qual era a questão, ela respondeu irritabilidade.
Perguntei-lhe sobre o que a irritava. Ela começou a contar-me uma longa história sobre as circunstâncias...e após algum tempo eu perguntei novamente: ok, então o que é que realmente a irrita. Uma vez mais, ela contou mais da sua longa história.
Tive de lhe perguntar diversas vezes até que ela estivesse capaz de se estabelecer clara, direta e sucintamente que se sentia traída pelo ex-marido, como ele tinha deixado de a apoiar em termos financeiros para colocar o dinheiro no negócio que geria. Também estava irritada porque ele lhe mentia sobre este assunto, bem como aos pais dela (com quem eles viviam).
Eu disse que sim, que ela parecia irritada, que conseguia ver isso nos seus olhos. O que sente neste momento?
Ela começou a falar sobre coisas que se centravam mais nas suas avaliações, julgamentos e opiniões do que nos seus sentimentos.
Disse 'estou a morder os meus sentimentos'.
Então convidei-a a imaginar que eu era o seu marido, e a 'morder um pouco de mim'. Ela começou a explicar que também se sentia culpada pela situação.
Então foquei-me nela novamente, e pedi-lhe que me dissesse algo diretamente, começando pelas palavras 'estou irritada...'
Finalmente, ela começou a expressar-se de forma direta, evocando as coisas sobre as quais estava irritada.
Eu reconheci os seus sentimentos, reconheci como conseguia ver e ouvir a sua irritação...e depois como consegui ver isto a tornar-se em lágrimas - e assim conseguia também ver o seu sofrimento.
Continuei a encorajar a sua expressão direta, e ela continuou a alternar entre irritação e lágrimas. À medida que se sentia ouvida, ela estava mais confiante em se expressar diretamente. Havia também muito silêncio, cheio dos seus sentimentos, e o meu simples reconhecimento.
No final, ela sentiu-se muito mais leve, e tinha aliviado uma grande quantidade de sofrimento e irritabilidade que transportava consigo desde o divórcio.
Para que este processo fosse bem sucedido eu tinha de ser persistente, focando a sua consciência, trazendo-a para a sua experiência através da participação na experiência com ela, e cortando com o contar da história que consistia numa forma de ela evitar sentimentos profundos. Proporcionei um recetáculo relacional para a irritabilidade, apoiando-a e encorajando-a a expressar-se...levou algum tempo antes dela sentir segurança suficiente para fazer isso. Também não correspondi com os seus evitamentos; pedindo-lhe contrariamente para integrar realmente a sua experiência.
Em resposta dei-lhe reconhecimento, que era pelo que ela mais ambicionava - ser vista e ouvida neste local. Eu não era o seu ex-marido, mas energia entre nós era forte o suficiente para que ela se sentisse satisfeita a expressar-se para mim como representante. A minha ligação inicial era, de facto, eu ser homem suficiente para evocar o fortalecimento dos seus sentimentos, e a minha recetividade era real o suficiente para ela sentir que não estava simplesmente a 'atuar'.
O que foi notável foi ela não ter gritado, atirado almofadas ou elevado a voz. A irritabilidade desloca-se na relação e pela posse, não necessariamente através de técnicas terapêuticas dramáticas.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Case #34 - Contato e autenticidade

O Nathan é um homem robusto, cheio de ideias, e com uma presença clara e forte.
A sua questão era a autenticidade. Ele não sentia que era verdadeiramente autêntico com os outros.
Quase nunca discutia ou argumentava. Era cooperante no trabalho e em casa.
A sua história familiar era de violência entre o irmão e a irmã mais velhos. Ao passo que, na família, ele ocupava o lugar de 'bom rapaz'. Houveram dois episódios que tiveram impacto nele enquanto criança. Um, foi estar bastante irritado com o seu irmão mais velho e ter atirado um objeto que quase lhe perfurou o olho. O outro, foi quando bateu num rapaz da escola, que posteriormente veio à sua casa e lhe arranhou a cara.
Desde essa altura, ele começou a conter-se e a não bater mais.
Surpreendeu-me ao dizer que não era muito confiante de si mesmo. Fiquei surpreendido porque ele era claramente um homem poderoso, estabelecido no seu corpo.
Ele disse que tinha um julgamento apurado em relação aos outros, e então tendia a guardá-lo para si mesmo.
Dei-lhe um processo de autenticidade, que em primeiro fiz com ele.
Havia três componentes - o que ele pensava, o que ele sentia, e o que ele queria do outro.
Fiz isto com ele, e ele comigo. Foi capaz de o desenvolver com facilidade.
Defini isto como um encontro autêntico. Continuando, iria conduzir a um diálogo autêntico, e isto eventualmente poderia conduzir a uma relação autêntica.
Depois convidei-o a fazer isto com três pessoas do grupo. A primeira, foi bastante simples. A segunda, foi uma mulher que lhe deu resposta de forma bastante complexa. Ele perdeu-se, e então disse-lhe para responder com uma declaração sentimental. Dei-lhe a fórmula, especialmente quando a responder a mulheres: depois da primeira declaração autêntica do encontro, ele devia fazer três declarações de sentimentos para cada declaração de pensamento que tivesse.
Depois ele praticou isto com uma pessoa.
Perguntei-lhe o que ele achou; ele respondeu fácil.
Como homem, ele gostava de ter instruções claras. Como pessoa com bastante poder latente, ele apenas precisava de uma forma de explorar isso com segurança.
Ele sentia-se confiante sobre conseguir continuar a praticar o processo.
Claro que ele podia ter trabalhado isto com a sua família na situação original, ou o seu evitamento de conflito. Mas esta foi uma intervenção presente e focada no futuro, e isso deu-lhe uma experiência imediata de sucesso. Foi importante devido à sinalização da confiança. Também lhe permitiu um veículo para a aprendizagem experimental, para que ele continuasse a explorar para si mesmo o processo de contato autêntico.
O contato é uma das facetas chave da teoria e prática Gestaltista, e esse foi o tema central desta sessão.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Case #33 - Uma revelação completa e autêntica

A questão do James era que trabalhava no duro toda a semana, frequentemente a viajar para outras cidades, e voltava a casa à sexta-feira. Estando fora, ele ambicionava retornar. Era importante para ele que a sua esposa e filho estivessem em casa, e que ele entrasse no sentimento de 'casa'.
Contudo, a sua esposa era gestora de relações humanas, e não estava em casa a maioria das vezes. Quando pressionada, ela salientava que a sua carreira também era importante, e que os seus sentimentos é que eram o problema.
Ele estava com a sua mulher há vários anos, e ambos se interessavam por crescimento pessoal e astrologia. Ele descrevia-se pelo signo carangejo, sinalizando sentimentos.
A relação deles era profunda e afetuosa, mas também tinha muitos conflitos, os quais ele queria reduzir para melhorar o relacionamento.
Isto proporcionou-me um contexto de intervenção.
Perguntei-lhe algo que fosse igualmente importante para a sua mulher, que ele gostasse de lhe dar a ela. Ele disse que, quando ela tinha uma apresentação no trabalho e partilhava com ele, ela queria o seu reconhecimento e apreciação.
Pedi-lhe uma segunda coisa. Quando ela lê um livro (geralmente de desenvolvimento pessoal), também queria que ele lesse e que falassem sobre ele.
Perguntei-lhe se ele fazia alguma dessas duas coisas. Ele disse que em determinado nível...mas não que a satisfizesse.
Então sugeri que ele levasse primeiramente a sério esses dois pedidos dela, e que os fizesse sinceramente.
Depois dele ter feito isso por algum tempo, sugeri que lhe fizesse uma declaração completa, complexa e autêntica, sobre o que significava para ele que ela estivesse em casa à sexta-feira à noite.
Demonstrei o que queria dizer com isto através de um exemplo da minha própria vida:
-> Crescendo, os aniversários sempre foram alturas especiais nas nossas casas. Enquanto para a minha mulher eram raramente celebrados; e havia alturas em que o aniversário da irmã era celebrado e o seu não.
Como resultado, ela nunca teve muito entusiasmo com os aniversários; gostava que fossem bastante simples e privados.
Eu esperava um dia especial, com diversas marcas de que era 'o meu dia'. Houve ocasiões em que ela não o fez da forma que eu queria; e eu senti-me bastante magoado; algo que era difícil para ela realmente compreender.
-
Então, a minha declaração completa, complexa e autêntica foi algo tipo isto:
Eu sei que os aniversários são um fardo para ti, e que não tiveste uma boa experiência com estes durante a infância. Também sei que tentaste bastante tornar os meus aniversários muito boas ocasiões, e eu estou muito grato por isso. Também tive a sensação que houve alturas em que não te sentias no local adequado por uma variedade de razões, colocando um esforço extra, ou fazendo mais do que uma determinada quantidade. Compreendo que para ti se relaciona com o que sentes genuinamente que consegues dar, e que não esperas mais que isso no teu aniversário. Contudo, eu sou diferente de ti. Os aniversários também são em certa parte um fardo para mim, mas de forma diferente. Porque eu tive a tradição deles serem muito especiais, tenho uma expetativa e esperança profundas de que sou o 'primeiro' naquele dia. E que, mesmo que não estejas nos teus melhores dias, que te sentes comigo apenas naquele dia para que eu sinta que estou a receber algum tipo de tratamento especial. Isso seria muito significativo para mim, e mais ainda porque eu sei que não é sempre fácil para ti. Sinto-me um pouco no limite a dizer-te isto, porque é importante para mim, e porque é um assunto difícil para ti. Gostava que considerasses o que te estou a pedir, que pensasses no que te estou a pedir, e que falasses comigo noutra altura se sentisses essa necessidade.
--
Dando ao James este exemplo pessoal da minha vida, ele podia entender como construir uma declaração pessoal profunda e autêntica por si mesmo, para a sua questão.
O Gestaltismo consiste em ser profundo e autêntico no relacionamento, e em ligações futuras e intimidade. Este é um exemplo de uma forma de agir com um cliente que já tem um nível de comunicação avançado.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Case #32 - Recursos autênticos

A Diana tinha dois problemas. O primeiro era que o primeiro filho, de 12 anos, não estudava tanto quanto ela gostaria.
Perguntei-lhe, numa escala, o quão bem ele estava e ela respondeu 6 ou 7. Ele fazia os trabalhos-de-casa? Sim. Mas, de facto, para entrar para uma escola de topo ele precisava de melhores resultados, e então a pressão começava a sentir-se.
Primeiro, respondi do meu próprio território - as minhas crenças centradas nos pais sobre o crescimento dos filhos, as minhas crenças sobre a importância do equilíbrio na vida da criança, e os meus valores sobre os resultados académicos não serem sempre o objetivo principal.
Isto foi importante, deixar a minha própria posição bem explícita, preencher quaisquer fronteiras de diferença, e descobrir onde e como a minha vontade de apoio (e as limitações deste) poderia encontrar-se com a posição dela.
Ela estava em conflito, tinha lido muitos livros de educação parental, e tentava criar algum espaço para ele, mas estava preocupada com o seu futuro e não sabia efetivamente como o motivar.
Então, a minha proposta foi a seguinte: ela sentava-se com ele, dizendo-lhe o que era importante para ela no seu crescimento.
Depois, ela imaginava o cenário que ele enfrentava - uma escola e sociedade altamente competitivas, que requeriam certas notas para a entrar em determinadas instituições. Ela deveria mapear as distintas instituições, os requisitos, e as vantagens e desvantagens de frequentar estas.
Depois deveria apoiá-lo a decidir quais eram os seus objetivos, onde ele queria acabar, e o que ele precisava de fazer para que isso acontecesse.
Desta forma, ela poderia ser completamente autêntica, enquanto ao mesmo o apoiava a encontrar o seu próprio campo. A sua vontade e desejo de o apoiar podiam então ser dirigidas de uma forma que sustentasse as suas escolhas, em vez de escolher por ele.
O seu segundo problema era em relação ao seu marido. Ele podia vir para casa, beber uma cerveja, ler o jornal, escrever no seu blog, e ignorar completamente tanto ela como o filho.
Obviamente, ela estava descontente com esta situação, mas não encontrava forma de dar a volta.
A respeito de outras coisas, ele participava na vida familiar, planeava passeios em família, dispendia tempo com a família nestes, e frequentemente cozinhava refeições.
Nunca tinha sido um grande comunicador, então não era nada de novo.
Era claro para mim que incomodá-lo, exigir dele, ou mesmo sugerir que ela tivesse alguma comunicação autêntica não iria ser eficaz.
Perguntei-lhe sobre o blog dele. Ela disse que era muito articulado, divertido e que ele incluia imagens com comentários interessantes. Ela apenas desejava que ele conseguisse falar assim com ela.
A direção estava clara para mim. Ela não ia mudá-lo, mas podia juntar-se a ele. Perguntei-lhe se ele tinha um ipad. Ela disse que lho tinha escondido.
Instruí que lhe desse imediatamente o ipad, mas que comprasse um para ela. Assim, ela podia comunicar com ele por escrito. Podia responder no seu blog (ele respondia às pessoas que faziam isso), podia mandar-lhe apontamentos, cartas, pequenos recortes. Enquanto ele estava sentado com o jornal, ela podia enviar-lhe comentários. Ela podia escrever cartas, imprimi-las, enviá-las por email, ou colocá-las sob a almofada dele.
Desta forma, eu estava a utilizar o que estava disponível. Isto não era trabalhar as suas dinâmicas intrapsíquicas, e eu recusava-me a reforçar a sua noção de que havia algo de errado com ela por ele não lhe prestar atenção. Contrariamente, procurei por onde estavam os recursos, e de que forma ela podia criativamente estabelecer contato com ele para que encontrassem um caminho para sair da estrutura fechada do seu relacionamento.

sábado, 16 de agosto de 2014

Case #31 - Trocar sexo por intimidade

A Louise disse que queria mais paixão no seu relacionamento.
O seu marido teve um caso há 5 anos. Durou aproximadamente um ano. Ele confessou, ajoelhou-se e implorou por perdão, e terminou o caso.
Desde essa altura as coisas têm melhorado lentamente, mas ainda há questões que marcam a Louise.
Quando ele lhe falou a primeira vez sobre o caso, ela respondeu de forma muito racional, perguntando se ele ia deixar o casamento ou não. A sua forma imediata de lidar foi avaliar a situação, e trabalhar em que estado ela e ele se encontravam. Foi uma boa estratégia inicial de sobrevivência.
Contudo, mais tarde, ela sentiu muita tristeza.
Mais recentemente, ela também se tem sentido irritada.
Mas isto não foi algo que ela evocou. Ele indicou que, se ela estava mesmo irritada, estava disposto a deixá-la (sem culpa). Então ela sentia receio de que ele fizesse isso se ela expressasse como se sentia.
Mas isto estava a consumi-la. E, apesar de haverem muitas coisas boas no relacionamento, ela não se encontrava completamente aberta para ele outra vez, incluíndo ao nível sexual - ela resguarda-se um pouco. Perguntei-lhe com que frequência tinham relações sexuais - cerca de 4 vezes por mês.
Perguntei-lhe o quanto falavam - cerca de meia hora por dia, em média.
Pedi-lhe que avaliasse o nível de inteligência emocional dele. Ela disse 3. Era claro, para mim, que dadas as ciercunstâncias ela não iria ter o tipo de escuta que ela queria dele. Trabalhar com ela a expressão dos seus sentimentos não iria ter muita utilidade; poderia libertar alguma irritabilidade, mas não iria aumentar a intimidade entre eles, porque nada mais viria realmente da parte dele. E, sem falar com ele sobre o que estava a acontecer para ela, o relacionamento deles continuaria de certa forma superficial.
O Gestaltismo não trabalha para o 'perdão', embora enfiatize 'o que é'. Mas, neste caso, havia um leque de escolhas de que ela nã estava consciente.
A Louise era uma observadora, e relatava ter alterado a sua forma de ensino ao longo dos anos para abandonar os 'deveres e não deveres', e tinha alcançado uma mudança gradual e bastante significativa na sua turma. Ela tinha estado constantemente numa 'busca de si mesma'.
Então percebi que ela tinha os seus recursos, e que claramente tinha trabalhado o seu próprio crescimento.
Mas isto não tinha, na verdade, sido transportado para o relacionamento do casal.
O meu foco foi trabalhar com o problema do relacionamento do casal, mais do que apenas a um nível intrapsíquico com a Louise, ou mesmo interpessoal comigo.
Então propus algum trabalho-de-casa.
Isto envolvia, basicamente, um acordo: mais sexo por mais intimidade.
Sugeri que dissesse ao seu marido que queria mais relações sexuais com ele, e maior proximidade. E que, para ela fazer isso, precisava de maior intimidade.
Para obter isso, eles deviam dispender meia hora por dia a desenvolver a intimidade no seu relacionamento. Sugeri uma gama de opções - praticar um discurso com autenticidade sobre pequenas coisas entre ambos; ler um livro juntos e discuti-lo; praticar alguns exercícios juntos, como escuta ou expressão emocional; criar espaço para os ressentimentos de cada um; ou apenas fazerem algo em conjunto que aumente a sensação de ligação e proximidade.
Concordei com ela que isto era completamente injusto. Ela estava, de certa forma, a desempenhar o papel de professora e a aumentar o ritmo dele, apenas para que ela conseguisse exprimir a sua irritabilidade para ele de forma segura. Não era justo, na medida em que ela estava a fazer o dobro do trabalho naquele sentido.
Contudo, haviam outros benefícios em diversas formas, e isso poderia também permitir-lhe obter os seus objetivos de trazer mais paixão para o relacionamento.
O resultado seria que eles estariam mais próximos de estar na mesma página, mais do que ser ela a única a ter uma experiência de maior consciência pessoal.
Esta aproximação utilizada chama-se 'trabalhar a relação do casal com uma pessoa'. Isto é, mantemos o relacionamento na vanguarda quando trabalhamos com um cliente. Mais do que focarmos apenas nele, observamos de que forma podemos fortalecer o relacionamento.
Muitos sentimentos, identidades e histórias são fruto do relacionamento do casal. Então, uma forma de mudança, é tornar significativa a alteração no relacionamento mais do que focar na experiência individual. Isto utiliza uma aproximação de terreno, trabalhando com o conjunto em vez das suas partes.
Soava bastante mercenário falar sobre trocar sexo por um diferente comportamento - mas as pessoas fazem isto inconscientemente de qualquer forma. Tomar posse do que um faz, trazer isto para a frente do relacionamento, realmente permite escolhas ao outro. Desta forma, a proposta não era manipuladora, mas antes honesta. E tamanha troca neste contexto consiste em algo que melhora o relacionamento do casal.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Case #30 - Uma boa razão para não sentir sexualidade

A Bridget reportou ter um sentimento "gelado" ao fundo das costas e na área genital. Ela estava divorciada há 5 anos e não tinha econtrado outro relacionamento.
Disse que tinha sido magoada pelo seu marido. Nunca tinha sido muito responsiva sexualmente para ele, mesmo ele tendo-se esforçado bastante durante vários anos, e a relação tinha muitos aspetos bons.
Perguntei-lhe especificamente como ele a tinha magoado, mas ela teve dificuldade em apontar isto. Ela disse que se tinha sentido próxima dele, tendo sido nessa altura que experimentou o sofrimento.
Mas parecia que ele não tinha feito nada em particular que fosse prejudicioso. Então as setas apontavas para outro lado.
Ela relatou que nunca tinha, na verdade, grande sentimento no seu corpo, e ponto final.
Eu coloquei-me no momento, contei-lhe a minha própria experiência de dissociação, e como achei difícil encontrar-me plenamente no meu corpo.
Ela disse que suspeitava, para ela, ter resultado de testemunhar o seu irmão ser espancado pelos seus pais desdes os 8 aos 16 anos. Depois disso ele foi roubado por traficantes humanos, e passaram 5 anos até conseguir escrever uma carta e ser resgatado. Contudo, depois disso, ele vagueou pelas ruas com outros mendigos, roubou, esteve preso diversas vezes, e até roubou a irmã quando ela o tentou ajudar.
Há 15 anos o pai deles morreu, e ela comentou que desde essa altura o seu irmão estava bem, feliz, e a ter uma boa vida.
Não obstante, ela ainda sente muito sofrimento e culpa por não ter consiguido fazer nada relativamente aos maus tratos.
Salientei que ela nunca tinha tido nenhum apoio durante aquele tempo - ninguém com quem falar, ninguém que a confortasse.
Sugeri que, dado que o sofrimento ainda se encontrava muito presente para ela, eu me sentasse junto dela e colocasse o meu braço em sua volta, para que ela pudesse sentir o apoio que nunca teve. Para ter o sentimento como se eu estivesse lá, naquele momento, com ela.
Enquanto fiz isto, ela começou a soluçar com profundo e extremo sofrimento, ofegando. Eu segurei-a e respirei, ficando bastante presente, ouvindo a terrível dor no seu choro.
Após um longo tempo o seu choro diminuiu, e ela ficou quieta e sossegada. Eu disse umas palavras de reconhecimento.
Depois, ela sentou-se e olhou para mim. Disse 'agora quero dar-lhe algo'. Eu podia sentir a mudança nela, e a minha energia. Disse-lhe que conseguia sentir isso, que sentia calor. Ela relatou sentir calor em si mesma, através do seu corpo.
Perguntei-lhe o que me queria dar, mas ela debateu-se por um tempo com as palavras.
Então ela disse 'gostava de beijar os seus olhos com os meus'. Conseguia sentir a sua abertura e a troca de energia entre nós. Eu disse que agora ela estava no seu corpo, e pronta para um relacionamento. Ela assentiu.
Não peguei na primeira figura que ela evocou (sentimentos gelados), nem na segunda (falta de sentimentos gerais pelo seu corpo). Respondi em diálogo e aguardei até que algo emergisse, que seria o problema não resolvido no âmbito familiar.
Testemunhar tamanho trauma deixou uma marca profunda nela e, apesar do seu irmão ter finalmente recuperado a sua vida, ela ainda suportava o sofrimento e culpa. Ela não conseguia prosseguir para si mesma enquanto não se visse no seu lugar de sorimento com total apoio.
Promovendo essa esperiência foi despoletada uma experiência de cura profunda, permitindo-lhe espontaneamente deixar ir o sofrimento e culpa, voltar para o seu corpo, e estar disponível para sentimentos sexuais.

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Barb Wire Tattoo: https://youtu.be/WlA9Xfgv6NM (37m)

A natural empath; vibrating with joy: https://youtu.be/tZCHRUrjJ7Y (39m)

Dealing with a metal spider: https://youtu.be/3Z9905IhYBA (51m)

Interactive group: https://youtu.be/G0DVb81X2tY (1h 57m)